Lugar nenhum

Nunca pude negar meu desejo por filmes, as pessoas ultimamente estão vidradas em séries, dessas televisas que raramente possuem uma sequência breve. Os filmes pelo contrário, a maioria deles já te confiam de cara seu final, acabando logo com a ansiedade gerada.

Um dos filmes que marcou a trajetória do cinema nacional, um dos meus preferidos “Central do Brasil” (1998) tirou lágrimas do público, contando a história de Dora, uma amargurada professora aposentada que ganha a vida escrevendo cartas às pessoas analfabetas, que ditam o que querem contar às suas famílias que estão morando longe. O enredo continua quando ela encontra-se com Josué, um garoto que perde a mãe e que Dora se vê na responsabilidade de ajudá-lo a encontrar seu pai no nordeste do país. Talvez na tentativa de reparar aquilo que lhe trazia culpa, a professora não enviava as respectivas cartas, daqueles que recorriam ao seu serviço.

Ao longo do meu trabalho (trabalho social com famílias), deparo-me com inúmeros Josués que de algum modo, suplicam para que os ajude a contar suas histórias, são inúmeras pessoas que precisam de ajuda para integrar a própria vida, por sentirem um grande vazio no espaço e tempo em que são inseridas e que sem destino, vivem à míngua.

Fazia sol num determinado dia, do qual me recordo da presença de um rapaz que desejava partir para outra localidade, era uma pessoa que sem compreender seu próprio universo, vivia de lugar em lugar tentando encontrar se. Esse jovem então pediu me para realizar uma ligação para sua mãe que residia também no nordeste do país, ficou aflito quando lhe disse que ninguém estava atendendo ao chamado do telefone, foi então que pediu me para ligar para irmã.

De súbito, a irmã atendera o telefone, identifiquei me, dizendo que estava com seu irmão em minha frente. A mulher toda apreensiva, não sabia o que dizer para me agradecer pela ligação e endereçava aos céus sua gratidão por encontrá-lo vivo. O rapaz apanhou o telefone e com lágrimas nos olhos, agradecia a irmã, por algo que não sabemos quando, a mesma havia feito por ele. Disse a ela que estava bem, que estava vivo e que ainda não encontrava-se pronto para o retorno, se é que um dia haveria de retornar. De maneira intrincada, pouco pode expressar se naquela ligação, contudo percebi a grande importância e o valor dessa vinculação, dessa ponte e da ferida que o tempo havia deixado configurado nessa relação. Sem muito, para evitar aquele momento de sofrimento, desligou o telefone se despedindo.

O rapaz me agradeceu compelido, agarrou suas coisas e partiu em busca de um outro caminho. Fitei meu olhar para o lugar nenhum, fiquei com a sensação desse vazio, dessa falta, dessa ausência, quem sabe daquilo que Dora não podia suportar e que encontrou em Josué seu sentido de vida.

Escolher

Verbo

transitivo direto

manifestar preferência por (alguém ou algo).

“escolheu o campo para viver”

transitivo indireto e bitransitivo

fazer opção entre (duas ou mais pessoas ou coisas).

“e entre duas alternativas”

 

Decidir, fazer escolhas, tomar caminhos. Escolher é sempre abrir mão de uma outra coisa, a cada escolha, uma renúncia.

Crescer se relaciona com a palavra escolher, a todo momento estamos escolhendo, isso ou aquilo e não há por onde fugir. A não ser que prefira a dependência, o ser pautado na vontade do outro.

Escolher por ora e outra, te faz sentir o gosto do fracasso, e é tão amargo que sufoca. E às vezes, o que te resta são sentimentos de inutilidade pública. A perfeição está longe de ser alcançada, assim como o êxito e nem sabemos direito se isso na verdade existe.

Desse modo, sigo acreditando nas verdades internas de cada um, e no esplendor que vem de dentro daquilo que te constitui inteiro, hoje é aqui mesmo que caminho e faço desse instante, o poder pertencer a escolha. Tenho o desprazer de cair, de não se relacionar com as decisões inesperadas de uma terça-feira nublada, mas passo por isso, porque sinto que no final, o gosto de se levantar pode ser ainda melhor. Nasço.

A anta

Havia um sonho de civilização.

Nele, não haveria diferença entre branco e preto, masculino e feminino, hétero e homo, crente e descrente, sul e norte, trabalho e trabalho. Sim, haveria diferenças, mas não faria diferença se durmo de noite ou de dia, se gosto de rock ou de samba, se falo português ou tupi et cetera.

Como eu disse, havia um sonho e, por assim dizer, um caminho tímido, mas um caminho. Acontece que uma anta de proporções gigantescas empacou pouco além da linha de partida e ficou difícil enxergar a linha de chegada. A anta evacuava e vomitava, de modo que alguns jovens se vestiram de faxineira e gari e resolveram fazer de conta.

Parece que a anta sempre esteve lá, no meio do caminho, à espera dos jovens que sabem fingir – pois há muito em comum entre anta gigantesca, estrume, vômito e jovens que sabem fingir.

E quanto ao sonho de civilização?

Espero que meu filho também o sonhe, a despeito da anta e de certos jovens.

Foto: Reprodução

Cenários

Para quem nunca teve dúvida que foi golpe, penso ser necessário analisar os desdobramentos das notícias de ontem, 17 de maio de 2017.

Dizíamos desde o segundo semestre do ano passado que o golpe ainda estava em marcha e que, eventualmente, o governo golpista cairia no primeiro semestre de 2017, abrindo assim a possibilidade de eleição indireta para presidente.

Bingo!

Mas e daí? Isso é tudo?

De jeito nenhum. Aprendi com excelentes professores que a primeira pergunta que devemos fazer diante de acontecimentos graves como um golpe é: a quem interessa?

As várias emendas à constituição que retiram direitos da população, enviadas ao Congresso pelo Executivo golpista, respondem à questão. O golpe foi orquestrado pelo grande capital, pelos interesses das grandes petroleiras internacionais, bancos e investidores em busca de maximização de lucros. Em prejuízo de quem? Dos pobres, dos trabalhadores e dos marginalizados e excluídos: afrodescendentes, homossexuais, mulheres, povos indígenas, trabalhadores rurais sem terra, etc.

Mas como dizíamos, o golpe ainda está em marcha, sendo imprescindível para seus articuladores impedir a volta, via eleições diretas, do grupo adversário, derrubado pelo impeachment. O crescimento da popularidade de Lula, a despeito das acusações sem provas, e a dificuldade enfrentada por Temer em aprovar no Congresso a reforma trabalhista e da previdência (graças às pressões populares), disparou o sinal de alerta.

Temer não dará conta do trabalho sujo.

Pior, a ascensão da esquerda nas ruas e a popularidade crescente de um de seus líderes trará uma reviravolta em menos de dois anos, frustrando os interesses do grande capital.

O que fazer, então?

Viabilizar a eleição indireta, que elegerá, via Congresso (o mesmo que desferiu o golpe e que vem aprovando medidas impopulares), o (a) novo (a) presidente. Deve ser alguém acima de qualquer suspeita e que terá, no entender dos conspiradores, “legitimidade” para implementar as demais emendas da maldade, em benefício do grande capital.

Qual foi e é o papel da grande mídia no desenrolar do golpe?

Cenários:

  1. Durante todo esse tempo, que teve início nas jornadas de 2013, o jornalismo da Rede Globo (por exemplo, mas não só) agiu sempre de boa fé, investigando com neutralidade todos os envolvidos nas acusações de corrupção. Nesse cenário, seus jornalistas e editores não teriam identificado as verdadeiras razões da seletividade por parte do judiciário nos vazamentos de acusações a políticos de esquerda, isto é, aos que defendem os direitos dos trabalhadores, dos marginalizados, dos excluídos. Ou seja, a grande mídia foi também vítima da desinformação (?), gerada pela incompetência de seus profissionais.
  2. Ao longo da conspiração, o jornalismo em questão participou da conspiração, omitindo informações e análises que indicavam sim tratar-se de um golpe em marcha em benefício do grande capital e em prejuízo dos trabalhadores e excluídos. Neste caso, como é óbvio, o golpe não terá se consumado. Sua marcha, com a queda iminente de Temer, envolve diretamente os grandes formadores de opinião, cujos interesses estão associados ao grande capital.

Se o cenário 1 fizer sentido, não temos como levar a sério o jornalismo da grande mídia.

Se o cenário 2 fizer sentido, é preciso analisar outros cenários, relacionados ao comportamento da população diante dos fatos:

  1. A população acatará todos os desdobramentos, entre os quais a eleição via Congresso de um novo (a) presidente, mesmo com a oposição de uma parcela que pleiteia por eleições diretas. Neste caso, possivelmente as demais medidas golpistas (emendas da maldade) prosseguiriam.
  2. A população, desiludida com o jogo político, estará apta a aceitar uma intervenção “de fora”, isto é, de forças que não participam (no seu entendimento) da política – não necessariamente de militares, mas também. Neste caso, o fechamento do Congresso e outras medidas muito utilizadas ao longo de uma história de golpes no país não estariam descartados. Caso a parcela politizada da população resistisse, mecanismos de “inteligência” e de violência institucionalizada estariam à mão, como sempre estiveram. E o golpe contra os direitos do povo continuariam.
  3. A população, em massa, exigirá eleições gerais, isto é, para o Executivo e Legislativo. Dependendo da correlação de forças, os golpistas recuariam.
  4. A população se dividirá, acirrando os radicalismos e ensejando a intervenção de forças de segurança. Os desdobramentos, nessa hipótese, cabem ao imponderável.

Conclusão:

O golpe ainda está em curso e cabe a cada um de nós analisar, debater e, claro, se manifestar antes que seja tarde.

Foto de Jorge William

O último voo

Pela janela consigo olhar ao longe a leveza dos pássaros que sobrevoam o céu nublado desse dia, parecem se entrelaçar no ritmo da dança que ladeia o voo, tão leve e solto. Olho mais para baixo, para o nível da terra, não percebo a mesma sincronicidade, aqui alçam voos pela cabeça uns dos outros.

Deixando um pouco esse devaneio de lado, que me faz pensar nesse contexto sócio histórico atual, se me permitem, desejo contar uma história sobre mais um desses pássaros, não daqueles bonitos, grandes e onipotentes, mas sim, de um “patinho” feio, que desde seu nascimento lutou com todas as forças para viver e se manter vivo.

Tive contato com tal ave poucas vezes, porém percebia ali grande vontade de viver. Quando era pequena, foi colocada em uma escola especial. Possuía um gesto carente, sempre sedenta por um abraço, por um afago que encontrava no colo das “tias” passarinhas. Nessa altura vocês devem estar se perguntando sobre sua família. Sim, havia uma, entretanto não podia contar com ela. E cheirava mal, vivia suja e era sempre aquele tipo estranho, pelo que ouvi falar, sempre suplicando pelo elo, diria até pelo entendimento.

Não sei muito bem como foi sua adolescência, mas acredito que as mazelas da pobreza e a falta do olhar de um reino centralizador de riquezas não a perceberam. A família também não era olhada por quase ninguém. Utilizava-se de formas não usuais para evitar o próprio sofrimento. Não tinham contato com cultura, lazer e outras formas de despertar a criatividade, se viravam com o que tinham e infelizmente tinham muito pouco.

A ave cresceu, deu à luz a um filho, que lhe retiraram por pensar que não seria capaz de cuidar, e mais uma vez padeceu. Pensava diferente dos demais, seu comportamento era distinto, sua fala era quase incompreensível, e mesmo assim buscava o contato, desejava ser notada, ser vista. Infelizmente, ninguém pode compreende-la, e também sem entender o que lhe acontecia, tentou ser notada de outras formas.

Assim, abusaram, maltrataram, bateram, arrancaram-lhe as penas e continuaram a não entendendo, em busca de um lugar e de asilo implorava. Poderia até recorrer a espaços menos destrutivos, no qual cuidavam das criaturas, todavia o leão rugiu mais alto, espantando-a, pronunciando que ali também não era seu lugar. Mas qual era então? A história se repetia e se repetia…

Perdida e cansada, já não possuía forças para continuar. Nunca esquecerei quando num dia desses me noticiaram que a ave alçou o último voo. Paro e continuo olhando novamente os pássaros além da minha janela, posso imaginar em outra esfera um lugar todo verde, num fundo azul incandescente, no qual a ave gorjeia feliz, quem sabe tenham finalmente a encontrado.

*Homenagem a uma lutadora desse sistema disfuncional que insistimos em não ver.

O importante é o principal, o resto é secundário

Parece uma afirmação banal, um candidato a bordão ou a clichê. Mas não é. Certas frases, como esta do presidente Luis Inácio Lula da Silva, ironizam uma determinada visão de mundo, a que se tornou dominante no reinado do pensamento único.

Acabei de ver com meus alunos o filme 1984 (li o livro há trinta anos) e o personagem Winston, funcionário do Ministério da Verdade, se encaixa perfeitamente no modelo em questão: o de criador, a despeito de si mesmo, de verdades encomendadas. Sua função é a de remendar a história, criando ou destruindo evidências, de modo que o discurso reforce o único pensamento aceitável: o dominante.

Ninguém estará imune, nem mesmo ele, às mentiras que são contadas como verdades pelos meios de comunicação. Quando Winston passa a questionar seu papel, sofre uma lavagem cerebral e volta a reverberar, com paixão, o apreço unânime pela mentira, celebrada como verdade. Na cena final ele ergue os braços gritando com todo mundo: “Vida longa ao Big Brother!”

O discurso único, que sustenta e fortalece o pensamento único, tem seu fundamento na ocultação do contraditório: não só de evidências contrárias à tese como também no uso inteligente da conjunção se.

Neste caso, li recentemente uma provocação que diz mais ou menos o seguinte: se Lula, por algum motivo, requeresse a posse do triplex em questão, algum juiz no mundo daria ganho de causa a ele com base na documentação existente? Ele obteria, por intermédio das provas arroladas, a posse do bem em questão?

Certamente não!

O discurso linear, o pensamento que elimina a hipótese contrária, é confortável. Ele não exige esforço mental, bastando ao receptor aceitá-lo e erguer os punhos em sinal de concordância. O máximo de debate, neste caso ao redor da mesinha de café do escritório logo após assistir a um dos telejornais matutinos, será sobre qual a melhor pena a ser aplicada ao acusado – isto é, a quem, mesmo sem provas e antes mesmo de qualquer sentença judicial, o discurso único já decidiu pela culpa.

Foto de Ricardo Stuckert