O lucro do Santander e o déficit da Previdência

A manchete foi mais ou menos assim “Santander aumenta seu lucro; números do Brasil compensam os resultados ruins no Reino Unido”.

Saiu no The Independent e falava sobre a queda de 14,7% no lucro do banco na região após o Reino Unido taxar em 8% as instituições bancárias, aliado à desvalorização da libra. Mesmo assim o lucro mundial do banco espanhol aumentou 4%, atingindo 6,2 bilhões de euros (21 bilhões de reais). Como pode?

No G1 surgiu a manchete “Santander Brasil tem lucro líquido de R$ 7,339 bilhões em 2016”. Mesmo em ano de crise, o lucro líquido (grana livre, depois de pagar impostos, aluguéis, salários, tudo) aumentou 10,8% comparado ao de 2015. Como pode?

Nosso país tem uma dívida pública absurda, em torno de R$ 3,5 trilhões. Assim como dívida alta, temos juros altos, o que faz lucrar muito aqueles que detêm títulos da dívida.

O Estado brasileiro paga muito dinheiro em juros dessa dívida anualmente. Parte desses recursos vem de uma DRU (Desvinculação de Receitas da União) que retira 30% das receitas da Previdência Social e é repassada para pagar os juros da dívida pública.

Alguns dos maiores credores (detentores de títulos da dívida pública) do Estado brasileiro são os bancos. Os mesmos que registram lucros recordes mesmo em ano de crise, quando (quase) ninguém mais está lucrando.

33% do lucro global do Santander veio do Brasil em recessão, país que tem no Congresso Nacional a atuação de lobistas que atuam para que o Estado não taxe os bancos como fez o Reino Unido, sob a desculpa de que isso afastaria os investidores (que não se afastaram do Reino Unido mesmo após a taxação de 8%).

A tal Previdência “deficitária” repassa suas receitas para garantir o bem estar de investidores que vivem longe do Brasil. A reforma da previdência apresentada por Temer, a qual vai passar no mesmo Congresso dos lobistas, vai fazer com que cada pessoa que trabalha nesse país pague o lucro de bancos da Europa e de demais países centrais no capitalismo.

As grandes navegações do Século XXI chegaram com uma roupagem nova e já estão levando o que sobrou.

O prefeito João Doria e sua guerra perdida

Na excelente série The Crown, disponível na Netflix, uma personagem nos lembra que os grandes líderes são aqueles que sabem escolher as batalhas certas para lutar e deixar de lado as que não pode vencer. O prefeito de São Paulo João Doria vai na contramão desse antigo ensinamento.

Ao decidir combater as pichações de forma ostensiva e midiática, entra numa batalha que não pode vencer. Não que as pichações devam ser liberadas ou não combatidas. Porém, ao fazê-lo com estardalhaço de marqueteiro, assumindo tom autoritário do tipo “prendo e arrebento” e se mostrando arrogante, precipitado e atabalhoado nas ações de combate, mostra desconhecimento dos mecanismos orgânicos de uma cidade como São Paulo e distanciamento da cultura de rua. No lugar do diálogo, prefere a truculência.

Movido pela prepotência de quem não está acostumado a dialogar ou ser contrariado – atitude típica de pessoas muito mimadas –, saiu pintando a cidade de cinza, destruindo obras importantes de artistas consagrados. Quando viu que faz besteira, se fez de esperto e disse que vai chamar artistas para colorirem o que foi apagado. Também veio com a conversa de separar pixo de arte. Uma obviedade que só quem vive no mundo de fantasia de mansões e condomínios fechados não enxerga. Grafite é arte, pixo é voz.

Com suas atitudes, Doria corre o risco de não apenas perder essa batalha como também de sair dela mais ridicularizado do que de costume. As intervenções registradas nos últimos dias nos muros pintados de cinza já dão o tom do que vem por aí. Ao eleger pichadores como inimigos declarados, reacende a chama de um movimento enraizado na cultura urbana de qualquer metrópole, marcado principalmente pelo ímpeto e ousadia contestatória dos jovens. Inadvertidamente, fez o desafio e chamou para briga um pessoal que adora ser desafiado. Vai perder feio e nesse meio tempo vai gastar nosso dinheiro e nossa paciência.

Doria age como um gestor incapaz de entender a rua, a cidade e suas particularidades. Não consegue enxergar abaixo das camadas mais altas a que está habituado e se embanana quando fala ou age nos níveis mais próximos da rua. Assume posições e atitudes de quem tem zero experiência em andar de verdade por São Paulo, a pé, e falar com as pessoas reais. Só faz isso quando tem lente para filmar e fotografar e só pelo tempo necessário para ser filmado e fotografado. De resto, parece conhecer a cidade apenas pela TV ou pela janela do carro. É por isso que comprou a briga errada.

Fosse menos almofadinha, do tipo que parece que a mamãe penteou e vestiu antes de sair de casa, saberia que para lidar com pichações a estratégia deveria ser menos marqueteira e mais inteligente. Menos agressiva e mais sutil. Declarar guerra é pedir para ter guerra. A rua, nesse sentido, não se intimida e revida. Pior para os muros, pior para a cidade, pior para o nosso bolso, pior para o prefeito.

Escrito pelo jornalista Rogério de Moraes, em seu Medium.

Quem será o próximo?

Passados pouco menos de trinta dias desde sua posse como presidente interino, Michel Temer já enfrenta uma série de problemas no Planalto e se depara com um cenário completamente inesperado: a queda de dois ministros suspeitos de envolvimento em escândalos de corrupção, além de uma perspectiva negativa – para ele e seu grupo aliado – de que a Operação Lava Jato venha a afastar outras peças importantes do governo.

Durante a solenidade que marcou o processo de transição do poder federal, no último dia 12, Temer pediu a “confiança do povo brasileiro”, em busca, segundo ele, de uma governabilidade da classe política com todas as esferas da sociedade. Naquele momento, o agora presidente interino, junto à trupe peemedebista, vestiu o manto da salvação nacional e declarou em alto e bom tom que a “moral pública será permanentemente buscada por meio dos instrumentos de controle e apuração de desvios” – curiosamente, esta parte do discurso foi a menos aplaudida.

Foram dez dias de um cenário relativamente calmo em Brasília, até que uma reportagem divulgada pela Folha de São Paulo, em 23 do mês passado, revelou à opinião pública aquilo que grande parte dos brasileiros já sabia: membros do alto escalão do novo governo estariam tramando falcatruas para deter as investigações da Polícia Federal. Foi a primeira bomba que abalou a toca dos usurpadores da República e jogou por água abaixo o pouco da confiança implorada pelo faxineiro do Carandiru. A Lava Jato, que Temer disse ser uma referência, tornou-se a sua principal dor de cabeça e colocou em xeque seu castelo de cartas minuciosamente construído com o intuito de escorraçar do poder uma presidente legitimamente eleita – todas as inúmeras críticas ao governo Dilma Rousseff são objetos de outro artigo.  

O primeiro alvo do governo provisório foi o até então ministro do Planejamento, Romero Jucá, acusado de costurar acordos escusos com empreiteiras em troca de propina para financiamento de campanha, além de sugerir explicitamente uma mudança de governo para “estancar a sangria” representada pela chamada República de Curitiba. Em um dos trechos da conversa, o ex-ministro afirma que “com Dilma não dá” e destaca nomes de outros partidos para, em suas palavras, serem “comidos” – momento em que cita o presidente nacional do PSDB, Aécio Neves.

Gravado de forma oculta pelo ex-presidente da Transpetro (subsidiária da Petrobras), Sérgio Machado, um dos principais nomes de Temer não resistiu aos impactos devastadores revelados pela imprensa e poucas horas depois pediu afastamento do cargo. Temer resistia à ideia, afinal, via em Jucá um interlocutor crucial em suas negociações com os setores empresarial e político. Mas não deu outra, o que era um sonho começara a se tornar um grande pesadelo e, na ausência de seu homem de confiança, o presidente interino adotou o discurso da tolerância zero e salientou que não permitiria em sua cúpula a presença de membros citados em delações premiadas ou investigados da justiça – se levar a cabo sua decisão, o presidente terá muitos papéis de demissão para assinar em breve.  

Uma semana depois foi a vez da queda de Fabiano Silveira, à época titular do recém-criado Ministério da Transparência, Fiscalização e Controle (que substituiu a antiga Controladoria Geral da União), grampeado pelas autoridades orientando investigados da Lava Jato. Num dos áudios também gravados por Sérgio Machado – no mesmo esquema de delação para enquadrar Jucá –  o ex-ministro aparece discutindo estratégias de defesa junto ao presidente do Senado, Renan Calheiros.

Com a enorme repercussão, seguida de grandes protestos de servidores e parlamentares em todo o país (inclusive de boa parte da base aliada), Temer se viu novamente encurralado, fez declarações vagas à mídia e, por fim, amargou mais uma derrota em seu rascunho de governo, já que Silveira gozava de grande prestígio junto ao presidente em exercício por uma razão altamente estratégica. O agora ex-ministro era indicado direto de Calheiros, político central no processo de negociação e aprovação do pacote econômico junto ao Congresso, além de articulador direto do impeachment definitivo de Dilma Rousseff. Para não contrariar o colega de partido, o presidente interino novamente resistiu, mas acabou cedendo.

Agora, mais nomes estampam as capas dos jornais. Fátima Pelaes (PMDB-AP), nomeada secretária de política para as mulheres, é apontada pelo Ministério Público como integrante de uma “articulação criminosa” devido a um possível desvio de R$ 4 milhões em emendas parlamentares ligada a uma ONG fantasma, em 2011. Contrária ao aborto, mesmo em caso de estupro, Pelaes faz parte do pacote de políticos completamente dispensáveis às mulheres e já enfrenta dura resistência de movimentos sociais.

Por enquanto, Henrique Alves, ministro do Turismo, também balança no cargo devido às investigações da Operação Lava Jato – enquanto investigado e não réu penal deverá manter-se no cargo. Na outra ponta do campo de jogo está Fábio Medina Osório, atual advogado-geral da União e que teria tentado usar de maneira irregular um jato da Força Aérea Brasileira (FAB).

O quadro de “democracia da eficiência” pintado por Temer em seu discurso de posse é risível. Cargos são criados às escuras para justificarem um aumento na meta fiscal e cortes são feitos na Saúde e Educação enquanto temos a média pífia de um ministro exonerado a cada dez dias. Alguém arrisca qual será a bola da vez? Vale a aposta!

Lulopetismo em risco: a queda de Dilma e do PT nunca esteve tão próxima

Apresentar um plano de recuperação econômica é obrigação do governo; colocar a culpa de tudo na imprensa não é o melhor caminho

Com o pedido de prisão do ex-presidente Lula feito pelo Ministério Público de São Paulo torna-se evidente a insatisfação de toda uma classe que busca desesperadamente a solução final para a crise econômica e política que assola o país. A cúpula petista colaborou para tal, primeiro com ataques diretos a Lava Jato e, em seguida, por meio do afastamento do até então ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, destituído do cargo por não conseguir delimitar ações daqueles que comandam as instituições responsáveis pelo combate à corrupção. Tal ação foi um recado direto do planalto a Sergio Moro e, como vimos logo em seguida durante a 24ª fase da operação, o cerco à Lula foi a “melhor resposta” encontrada pelos investigadores para justificar que manteriam sua independência investigativa mediante o governo federal.

Desde o escândalo do mensalão o Partido dos Trabalhadores mostra que o trato de seus dirigentes com a imprensa é risível. Esconder seus próprios erros por detrás da cortina midiática é uma péssima estratégia e deixa o partido indefeso perante uma força sobrenatural que é a imprensa brasileira. Lula, Dilma e outros líderes petistas deveriam aprender com Getúlio Vargas, que mesmo em momentos de enormes adversidades, criou meios efetivos de comunicação com a sociedade – lembremo-nos do jornal “Última Hora”, revolucionário no país e financiado por Vargas junto a Samuel Wainer, jornalista até então opositor ao presidente – e superou os julgamentos diários da cadeia de comunicação chefiada por Carlos Lacerda.

O governo de Dilma Rousseff encontra-se em ebulição e os últimos acontecimentos faz-nos crer que o pedido de impeachment será reaberto por Eduardo Cunha, picareta maior que, se fosse atuasse politicamente em um país com leis mais sérias, já estaria bem longe do poder. Tanto a delação de Delcídio do Amaral, passando pela prisão do marqueteiro de campanha João Santana, bem como a possibilidade de Lula virar ministro – o que colabora para uma interpretação dúbia por parte da oposição – são elementos que caem nas costas da presidente, cada vez mais isolada e que assiste, estarrecida, membros de sua própria base aliada abandonarem, num gesto covarde, a aliança firmada com o PT, migrando para a oposição na busca de parceiros para um possível governo de Michel Temer. Um horror!

As expectativas do mercado financeiro dão conta de que a recessão em 2016 pode ser pior que a do ano passado – por enquanto os únicos números positivos são o de baixa da inflação e melhora nos índices de dívida externa. Sabemos que tais mecanismos trabalham sob a égide da especulação. Em um momento dramático como o qual estamos passando, interpretações de que os financistas trabalham para derrubar Rousseff já é clara. Por outro lado, vamos analisar: quais alternativas a presidente e seus ministros estão tomando durante a gestão para reverter o quadro de agonia? Até agora ninguém descobriu a resposta.

O confronto entre situação e oposição ficou mais interessante. As manifestações marcadas para o próximo domingo darão o efeito das atitudes a serem tomadas pelo governo. Lula decidiu partir para o confronto, convocando sua militância para debater frente a frente com a multidão – uma atitude nada inteligente. Caso aceite o convite para tornar-se o mais novo ministro-chefe da Casa Civil, deixará claro o seu receio em ser chamado novamente para depor, ou coisa pior, escorando-se no foro privilegiado.

Aparentemente o ex-presidente ativou a tecla do “já chega!” e vai partir para o confronto sem medo do que vier pela frente. Se ainda for o Lula inteligente estrategicamente, mordaz e político nato, certamente não aceitará ser ministro na gestão Dilma, se preocupando em prestar todas as justificativas necessárias e, quem sabe, preparar o terreno para uma volta em 2018. Do contrário, se for o Lula demagogo e atrasado em seu discurso de começo do século, continuará colocando a culpa de tudo na imprensa e sendo engolido pela tropa dos inocentes que vestem o manto de santo em Brasília.  

Quem se importa com o metrô de SP?

Quando me deparo com reclamações das ciclovias/faixas e corredores de ônibus “não planejados”, penso que vivo em qualquer cidade virtual do ‘The Sims’ que não seja a real São Paulo. Por incrível que pareça, hoje se critica mais a criação de 479 km de faixas exclusivas para ônibus e 472,7km de malha cicloviária do que 78,4 km de metrô e 2,9 km de monotrilho. Como dizem os matemáticos, neste caso, “menos é mais”?

Desde a implementação de medidas para a melhor circulação na cidade – uma das principais promessas de Haddad – , a prefeitura de São Paulo vem travando batalhas jurídicas para ninguém botar defeito. As vítimas, quase sempre, as ciclovias e os corredores ditos “não planejados”. Mesmo com aprovação de 80% da população, por vezes, as obras viárias para ciclistas são vítimas de críticas e ataques. Grande parte destes projetos, após muita alimentação do ódio da ala conservadora paulistana e uns dias de travamentos jurídicos, são aprovados por magistrados que, estes sim, dizem que existe planejamento prévio. Mas e o metrô? Com seus míseros 80km, será que alguém se importa com ele? Ou não segregando o espaço do carro, tudo ok?

Nas últimas semanas, pude selecionar para a confecção deste texto algumas manchetes sobre o enorme desperdício de dinheiro e tempo com as obras da ‘minhoca de metal’ e do ‘revolucionário’ monotrilho. Prometido para 2012, depois para 2015 e agora para 2018, apenas 2, 9km deste transporte dito ‘inovador’ estão em funcionamento – e com tarifa sendo cobrada. A estimativa é que a obra completa custe aos cofres do estado cerca de R$ 7,1 bilhões.

Outro feito ‘bem planejado’ é a linha 4 – amarela. Prometida há 11 anos, é uma obra que pode entrar até para os livros de história. Na época, Lula e George Bush ainda estavam em seu primeiro mandado de governo, e os adolescentes – hoje adultos – curtiam a Vagabanda na Malhação, famosa série da Globo. E para enriquecer ainda mais sua biografia, o Governo do Estado, após gastar R$ 20,4 milhões com o contrato, rescindiu o documento com a empresa Isolux Córsan-Corviam – que tocava a obra – por irregularidades. Com a nova licitação, o governo terá duplo dano financeiro em época de recessão. Convenhamos que irregularidades nas obras do metrô não são novidades, basta se informar com a Alstom, Siemens e outras empresas que fizeram parte do famoso cartel, em que a reforma de trens custou 40% mais caro que a compra de novos. Mas, quem se importa?

O metrô de São Paulo nasceu na década de 70, mesmo período em que a cidade de Seul, na Coreia do Sul, ganhava também seu sistema metroviário. De lá pra cá, a diferença na malha é gritante: em Seul, pode-se contar com mais de 300km de trilhos, com as mesmas dificuldades de trâmites que aqui. E sem citar a Cidade do México, com seus 225,9 km. E, para quem curte esperar mais um pouco, não há decepções: até 2017 não teremos nem um  km a mais de metrô. No ritmo atual, SP levaria 172 anos para ter uma malha como a de Londres, por exemplo. E aí, já se importou?

Embora sejam obras diferentes, Haddad é atacado cotidianamente por tocá-las, enquanto Alckmin é blindado de críticas. Por um lado, um tem bons índices de aprovação;  já o outro segue no rodapé das pesquisas. Será que a população paulistana que critica tais medidas municipais prefere andar de ônibus e bicicleta e por isso cobra com mais afinco? Acho que duas ou três tachinhas podem responder essa pergunta.

Penso que, talvez para alguns, o metrô seja entendido como um presente do governo estadual, e não uma obrigação e principal promessa de campanha de Alckmin e dos tucanos anteriores. Será que, em questão de transporte sobre trilhos, o que vier é lucro? Em 2018, o provável candidato do PSDB ao Planalto será Alckmin. Se eleito, poderemos dizer que a Síndrome de Estocolmo é o principal dos males que enfrentamos, e que durante a semana em horário comercial ele estará convidado para o abraço coletivo involuntário dentro dos vagões do metrô de SP. Tem convite mais afetivo?

Diário de uma greve

Deflagrada em assembleia realizada no último dia 13 de março no MASP, a atual greve dos professores do Estado de São Paulo, a maior dos últimos 15 anos, embora não tenha conseguido paralisar 100% da categoria vem demonstrando grande fôlego. Pressionada pelas péssimas condições de trabalho, baixa remuneração, ausência de um plano de carreira e um contexto geral de violência, a classe vê-se acuada diante de novos ataques em seus direitos. É necessário, porém, que a categoria entenda que este é só o começo da luta. A última grande mobilização  deve ser encarada como parte de um primeiro passo. Não será fácil arrancar algo deste governo, a tanto tempo no poder, acostumado a blindagem midiática e a não responder às demandas de nossa e de outras categorias. Somente uma grande capacidade de mobilização e resistência poderá surtir algum efeito, assim como ocorreu no estado do Paraná.

O ato da última sexta-feira (27/03), que conseguiu colocar na rua mais de 60 mil docentes, sendo grande parte do interior paulista, aliado ao já então longo período de paralisação, fez com que uma comissão do sindicato dos professores, incluindo a presidente do mesmo, Profa. Maria Isabel Noronha, fosse ouvida pelo atual secretário de educação, Herman Voorwal, na última segunda-feira.

Muito embora o secretário não tenha acenado para as questões relacionadas anteriormente, o fato de receber os representantes da categoria e firmar compromisso de encaminhar projeto à Câmara dos Deputados de fim da duzentena para professores contratados por período determinado (docentes denominados de Categoria O), demonstra o desconforto que a mobilização vem causando no governo estadual, afinal, é sabido que tanto os governos Alckmin quanto Serra não ouvem e nem negociam com as categorias do funcionalismo público. Essa duzentena consiste no impedimento obrigatório do docente retornar as atividades, por duzentos dias letivos, o que equivale a um ano letivo, ao termino do seu contrato, que é prorrogável por no máximo mais um ano.

Fechamento de salas de aula

O corte de R$ 1 bi do orçamento do Estado de São Paulo para 2015 na educação gerou: o fechamento de 3900 salas de aula; corte das verbas para a manutenção dos prédios escolares; falta de material pedagógico; falta de material de escritório e de higiene pessoal, como sabonete e papel higiênico. Esse corte no orçamento causou ainda corte de pessoal de apoio, como inspetores e equipes de limpeza. Foram cortados também, em média, um coordenador pedagógico por escola. O fechamento das salas deixou muitos professores desempregados (20 mil temporários, sobretudo os de categoria O), abalando a estabilidade dos professores das demais categorias, devido à diminuição das aulas.

Dividir e governar

A demora na realização de concursos para ingresso no Magistério decorreu num grande número de professores contratados, algo em torno de 40% a 50% da categoria. Esses professores contratados detinham os mesmos direitos dos efetivos, como férias, quinquênio e atendimento pelo IAMSPE. A diferença residia basicamente na atribuição de aulas, pois o contratado escolhe suas turmas após a escolha dos efetivos. Com a criação da Lei Complementar 1093/09 de 16 de julho de 2009, que dispõe da contratação por tempo determinado, os professores contratados foram divididos em categorias. Os contratados, que até a promulgação da lei e que tinham aulas atribuídas naquele permaneceram com os mesmos direitos, passando a serem denominados de Categoria F. A partir da lei, quem não tinha aula atribuída passou a ser denominado Categoria O. Esta última categoria criada perde inúmeros direitos, como férias, atendimento médico pelo IAMSPE, redução do limite de faltas médicas (até duas por ano), entre outros. O professor desta subcategoria enfrenta ainda o desemprego a cada dois anos, período no qual o docente não pode renovar seu contrato, para que cumpra sua duzentena. Nesta conjuntura de fechamento das 3900 salas de aula na rede estadual, o professor categoria O foi mais duramente atingido, pois 20 mil docentes ficaram sem aula, literamente desempregados. Além disto, muitos efetivos e Fs foram obrigados a completar a jornada em duas ou mais escolas, pois não conseguiram completar suas jornadas nas suas unidades sedes.

Política de conflitos: dividir para governar

Como os sucessivos ataques à nossa classe levou-nos a uma divisão em categorias, e cada nova categoria criada difere das demais por possuir menos direitos, embora tenha os mesmos deveres, tornou-se muito difícil mobilizar todo o grupo, mesmo que soframos juntos diariamente. O assédio moral constante, os fracassos pedagógicos, a violência generalizada e a perda de direitos buscou formar uma classe inerte e amedrontada. Só quem vive por trás dos muros da escola entende toda a sorte assédio moral que sofremos. A falta de preparo e planejamento para o acolhimento dos alunos nas suas reais necessidades colaboram para os casos de indisciplina e violência. Considero, contudo, a atual conjuntura educacional do Estado de São Paulo uma consequência trágica, porém calculada de uma verdadeira e velada política de Estado.

A estratégia do governo

Com a frieza que lhe é peculiar, Alckmin nega a envergadura desta greve como quem nega o colapso do sistema Cantareira, agindo sob a confiança depositada pelo seu cego eleitorado e o apoio dos meios de comunicação. Desta forma, negando uma crise aparentemente ela não existe.

Contrariando a Constituição Federal, o governo paulista ordena que as Diretorias de Ensino obriguem os Diretores das Unidades Escolares impedirem a atuação dos comandos de greve (comitivas formadas por professores em estado de greve, sindicalizados ou não, que visitam as escolas que ainda não aderiram ao movimento), a simples divulgação da greve, e a tentativa de transmitir às comunidades a ideia de que está tendo aula normal.

Para golpear o atual movimento grevista, o governo ainda resolveu “soltar” o malfadado bônus para as escolas que tenham atingido as metas do IDESP (espécie de nota atribuída às escolas por meio de exame aplicado aos alunos de 7º e 9º anos do Ensino Fundamental e do 3º ano do Ensino Médio), o que equivalerá a aproximadamente metade dos professores. A política de bônus consiste numa armadilha para a classe, pois além deste valor não estar atrelado ao salário, não sendo incorporado à aposentadoria a falta de transparência das regras para o pagamento geram mais divisões no interior da classe. Até a poucos dias o boato que corria na rede estadual era que este ano o governo não pagaria o bônus. Pagá-lo agora significa uma tentativa de esvaziar a assembleia do dia 02/04, véspera de feriado, o que pode incentivar que muitos docentes viajem, ao invés de participarem da assembleia.

Está em nossas mãos

Não tem arrego! Esta é a palavra de ordem dita e ouvida por aqueles que não querem ceder às chantagens do governo. Mais do que uma greve por melhorias salariais, o que é extremamente necessário, esta greve tornou-se, pela sua magnitude, uma lição de cidadania. O contato entre docentes , comunidade e estudantes está promovendo um diálogo como a muito não visto. Temos contado com a presença de inúmeros estudantes em nossos atos e em algumas situações tem sido promovidas aulas públicas sobre a greve para os estudantes, como ocorrido ontem no bairro de São Miguel Paulista. Que seja só o começo.

Por Cris dos Santos,  professora da rede estadual de ensino de SP e parte do comando de greve

 Foto: Giovanna Consentin / Jornalistas Livres