Quem será o próximo?

Passados pouco menos de trinta dias desde sua posse como presidente interino, Michel Temer já enfrenta uma série de problemas no Planalto e se depara com um cenário completamente inesperado: a queda de dois ministros suspeitos de envolvimento em escândalos de corrupção, além de uma perspectiva negativa – para ele e seu grupo aliado – de que a Operação Lava Jato venha a afastar outras peças importantes do governo.

Durante a solenidade que marcou o processo de transição do poder federal, no último dia 12, Temer pediu a “confiança do povo brasileiro”, em busca, segundo ele, de uma governabilidade da classe política com todas as esferas da sociedade. Naquele momento, o agora presidente interino, junto à trupe peemedebista, vestiu o manto da salvação nacional e declarou em alto e bom tom que a “moral pública será permanentemente buscada por meio dos instrumentos de controle e apuração de desvios” – curiosamente, esta parte do discurso foi a menos aplaudida.

Foram dez dias de um cenário relativamente calmo em Brasília, até que uma reportagem divulgada pela Folha de São Paulo, em 23 do mês passado, revelou à opinião pública aquilo que grande parte dos brasileiros já sabia: membros do alto escalão do novo governo estariam tramando falcatruas para deter as investigações da Polícia Federal. Foi a primeira bomba que abalou a toca dos usurpadores da República e jogou por água abaixo o pouco da confiança implorada pelo faxineiro do Carandiru. A Lava Jato, que Temer disse ser uma referência, tornou-se a sua principal dor de cabeça e colocou em xeque seu castelo de cartas minuciosamente construído com o intuito de escorraçar do poder uma presidente legitimamente eleita – todas as inúmeras críticas ao governo Dilma Rousseff são objetos de outro artigo.  

O primeiro alvo do governo provisório foi o até então ministro do Planejamento, Romero Jucá, acusado de costurar acordos escusos com empreiteiras em troca de propina para financiamento de campanha, além de sugerir explicitamente uma mudança de governo para “estancar a sangria” representada pela chamada República de Curitiba. Em um dos trechos da conversa, o ex-ministro afirma que “com Dilma não dá” e destaca nomes de outros partidos para, em suas palavras, serem “comidos” – momento em que cita o presidente nacional do PSDB, Aécio Neves.

Gravado de forma oculta pelo ex-presidente da Transpetro (subsidiária da Petrobras), Sérgio Machado, um dos principais nomes de Temer não resistiu aos impactos devastadores revelados pela imprensa e poucas horas depois pediu afastamento do cargo. Temer resistia à ideia, afinal, via em Jucá um interlocutor crucial em suas negociações com os setores empresarial e político. Mas não deu outra, o que era um sonho começara a se tornar um grande pesadelo e, na ausência de seu homem de confiança, o presidente interino adotou o discurso da tolerância zero e salientou que não permitiria em sua cúpula a presença de membros citados em delações premiadas ou investigados da justiça – se levar a cabo sua decisão, o presidente terá muitos papéis de demissão para assinar em breve.  

Uma semana depois foi a vez da queda de Fabiano Silveira, à época titular do recém-criado Ministério da Transparência, Fiscalização e Controle (que substituiu a antiga Controladoria Geral da União), grampeado pelas autoridades orientando investigados da Lava Jato. Num dos áudios também gravados por Sérgio Machado – no mesmo esquema de delação para enquadrar Jucá –  o ex-ministro aparece discutindo estratégias de defesa junto ao presidente do Senado, Renan Calheiros.

Com a enorme repercussão, seguida de grandes protestos de servidores e parlamentares em todo o país (inclusive de boa parte da base aliada), Temer se viu novamente encurralado, fez declarações vagas à mídia e, por fim, amargou mais uma derrota em seu rascunho de governo, já que Silveira gozava de grande prestígio junto ao presidente em exercício por uma razão altamente estratégica. O agora ex-ministro era indicado direto de Calheiros, político central no processo de negociação e aprovação do pacote econômico junto ao Congresso, além de articulador direto do impeachment definitivo de Dilma Rousseff. Para não contrariar o colega de partido, o presidente interino novamente resistiu, mas acabou cedendo.

Agora, mais nomes estampam as capas dos jornais. Fátima Pelaes (PMDB-AP), nomeada secretária de política para as mulheres, é apontada pelo Ministério Público como integrante de uma “articulação criminosa” devido a um possível desvio de R$ 4 milhões em emendas parlamentares ligada a uma ONG fantasma, em 2011. Contrária ao aborto, mesmo em caso de estupro, Pelaes faz parte do pacote de políticos completamente dispensáveis às mulheres e já enfrenta dura resistência de movimentos sociais.

Por enquanto, Henrique Alves, ministro do Turismo, também balança no cargo devido às investigações da Operação Lava Jato – enquanto investigado e não réu penal deverá manter-se no cargo. Na outra ponta do campo de jogo está Fábio Medina Osório, atual advogado-geral da União e que teria tentado usar de maneira irregular um jato da Força Aérea Brasileira (FAB).

O quadro de “democracia da eficiência” pintado por Temer em seu discurso de posse é risível. Cargos são criados às escuras para justificarem um aumento na meta fiscal e cortes são feitos na Saúde e Educação enquanto temos a média pífia de um ministro exonerado a cada dez dias. Alguém arrisca qual será a bola da vez? Vale a aposta!

Lulopetismo em risco: a queda de Dilma e do PT nunca esteve tão próxima

Apresentar um plano de recuperação econômica é obrigação do governo; colocar a culpa de tudo na imprensa não é o melhor caminho

Com o pedido de prisão do ex-presidente Lula feito pelo Ministério Público de São Paulo torna-se evidente a insatisfação de toda uma classe que busca desesperadamente a solução final para a crise econômica e política que assola o país. A cúpula petista colaborou para tal, primeiro com ataques diretos a Lava Jato e, em seguida, por meio do afastamento do até então ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, destituído do cargo por não conseguir delimitar ações daqueles que comandam as instituições responsáveis pelo combate à corrupção. Tal ação foi um recado direto do planalto a Sergio Moro e, como vimos logo em seguida durante a 24ª fase da operação, o cerco à Lula foi a “melhor resposta” encontrada pelos investigadores para justificar que manteriam sua independência investigativa mediante o governo federal.

Desde o escândalo do mensalão o Partido dos Trabalhadores mostra que o trato de seus dirigentes com a imprensa é risível. Esconder seus próprios erros por detrás da cortina midiática é uma péssima estratégia e deixa o partido indefeso perante uma força sobrenatural que é a imprensa brasileira. Lula, Dilma e outros líderes petistas deveriam aprender com Getúlio Vargas, que mesmo em momentos de enormes adversidades, criou meios efetivos de comunicação com a sociedade – lembremo-nos do jornal “Última Hora”, revolucionário no país e financiado por Vargas junto a Samuel Wainer, jornalista até então opositor ao presidente – e superou os julgamentos diários da cadeia de comunicação chefiada por Carlos Lacerda.

O governo de Dilma Rousseff encontra-se em ebulição e os últimos acontecimentos faz-nos crer que o pedido de impeachment será reaberto por Eduardo Cunha, picareta maior que, se fosse atuasse politicamente em um país com leis mais sérias, já estaria bem longe do poder. Tanto a delação de Delcídio do Amaral, passando pela prisão do marqueteiro de campanha João Santana, bem como a possibilidade de Lula virar ministro – o que colabora para uma interpretação dúbia por parte da oposição – são elementos que caem nas costas da presidente, cada vez mais isolada e que assiste, estarrecida, membros de sua própria base aliada abandonarem, num gesto covarde, a aliança firmada com o PT, migrando para a oposição na busca de parceiros para um possível governo de Michel Temer. Um horror!

As expectativas do mercado financeiro dão conta de que a recessão em 2016 pode ser pior que a do ano passado – por enquanto os únicos números positivos são o de baixa da inflação e melhora nos índices de dívida externa. Sabemos que tais mecanismos trabalham sob a égide da especulação. Em um momento dramático como o qual estamos passando, interpretações de que os financistas trabalham para derrubar Rousseff já é clara. Por outro lado, vamos analisar: quais alternativas a presidente e seus ministros estão tomando durante a gestão para reverter o quadro de agonia? Até agora ninguém descobriu a resposta.

O confronto entre situação e oposição ficou mais interessante. As manifestações marcadas para o próximo domingo darão o efeito das atitudes a serem tomadas pelo governo. Lula decidiu partir para o confronto, convocando sua militância para debater frente a frente com a multidão – uma atitude nada inteligente. Caso aceite o convite para tornar-se o mais novo ministro-chefe da Casa Civil, deixará claro o seu receio em ser chamado novamente para depor, ou coisa pior, escorando-se no foro privilegiado.

Aparentemente o ex-presidente ativou a tecla do “já chega!” e vai partir para o confronto sem medo do que vier pela frente. Se ainda for o Lula inteligente estrategicamente, mordaz e político nato, certamente não aceitará ser ministro na gestão Dilma, se preocupando em prestar todas as justificativas necessárias e, quem sabe, preparar o terreno para uma volta em 2018. Do contrário, se for o Lula demagogo e atrasado em seu discurso de começo do século, continuará colocando a culpa de tudo na imprensa e sendo engolido pela tropa dos inocentes que vestem o manto de santo em Brasília.