Da Vida

Era tarde, continuava perdido dentro de uma vida cheia de indagações e perscrutações. Talvez empregado daquilo, realmente não entraria em contato de fato. Preso em círculos, não contemplava horizontes, medo e ansiedade o paralisavam, sempre. Mas a vontade da busca superava o sentimento anterior. Vivia.

Por amores impossíveis apaixonava-se, em histórias fantásticas, perdia-se, brincava com os desejos infantis que persistia em fantasiar, devaneava livremente seus remotos mistérios. Sonhar era lei.

Utopias a parte, tinha a parte o que era seu por direito, quiçá como naquela velha história de um boneco de madeira que ansiava ser menino de “verdade”, sua grande vontade, o de se tornar “eu” na integridade. Arriscou.

Por não ter encontrado aquilo que mais queria martirizou-se, porventura por um colo maternal que jamais teria, acender era preciso, entalhar era necessário, se despir de certas verdades era imprescindível e transcrever a vida todos os dias era rotina.

Devido o padecer do princípio de prazer, ratificou, quem seria eu senão aquele, se não galgasse por deveras dores em busca da plenitude perseverante?

Inferiu que a vida é mesmo assim, um pouco padecimento, um tanto ventura, algum tanto angústia e um estreito aprazimento. Ainda em busca de respostas parou, continuou e constatou, a vida era mesmo aquela.

por Filipe Marson, psicólogo

A gente falhou

“Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todo homem é um pedaço do continente, uma parte do todo. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar dos teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano, e por isso não me perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”  – John Donne

Não posso nem dizer que a gente falhou como espécie, porque seria simplista demais dizer apenas isso. A gente falhou em tantas instâncias que não consigo sequer começar a ranqueá-las aqui. O caso do PM que atirou nos dois caras fugindo com uma moto é desesperador. Mas desesperador também é o caso do Amarildo. E já era desesperador no caso do Sandro, do ônibus 174. Já era desesperador nas chacinas do Carandiru e da Candelária. Já era desesperador antes disso. Antes de eu nascer. Antes de você, provavelmente, nascer.

E o que a gente fez?

Sinceramente, não consigo enxergar o que é que pode ter sido feito, porque continua tudo acontecendo o tempo todo e a gente continua não fazendo nada. A gente não faz nada como cidadão, a gente não faz nada como imprensa, a gente não faz nada como autoridade. Tá tudo acontecendo o tempo todo como sempre aconteceu. Pobre morrendo porque é pobre, porque é preto, porque é favelado, porque mora na periferia, porque não tem emprego e precisa roubar, porque é gay, porque é trans, porque é mulher, porque é religioso, porque é ateu, porque é PT, porque é tucano, porque tá deixando de ser pobre, porque é vivo. Basicamente, a gente tá sendo morto só porque a gente existe.

Tem rico morrendo na mão de pobre, pobre morrendo na mão de rico. Policial matando e sendo morto. Policial sendo bandido e bandido criando poder paralelo pra suprir aquilo que o Estado não dá conta. E a gente tá aqui não fazendo nada desde sempre. E o coração segue apertado e a gente chora e se revolta e sente um gosto amargo na garganta que podia ser o nosso sangue hemorragindo por um buraco de bala, mas é só nojo por não ter quase ninguém agindo. E quando tem, a gente é obrigado a engolir seco que é “a porra dos direitos humanos que só defende bandido”, como uns dizem. A gente tá mais morto do que quem já foi assassinado, porque esses já deitaram seu corpo. E a gente tá aqui, vagando sem alma e sem calma e achando que isso é vida. A gente vegeta, rumina, vomita e come o próprio vômito. E acha que essa merda toda é vida.

Aplaude polícia matando bandido como se fosse um orgulho. Tá todo mundo louco. É todo mundo vítima. Tá todo mundo morto e achando que matar bandido é estar vivo. O PM que puxa o gatilho é tão assassinado quanto o cara que ele acabou de alvejar. A cada tiro que ele dá no outro, ele mata a si mesmo e não tá enxergando. E se ele não se enxerga, ele não enxerga o outro. Ele não sabe que aquilo ali no chão, inerte, é tão gente quanto ele. Que tem família, que tem filho, mulher, mãe, pai, irmão. Que tinha sonhos e pesadelos. A gente tá cagando pro pesadelo dos outros. É cada um por si e o outro “que se foda, ninguém mandou escolher essa vida”. Que vida? A gente não sabe porra nenhuma da vida de ninguém. Nem da nossa, quanto mais da dos outros.

A gente tá morto e tem apresentador de TV batendo palma pra gente matando gente na frente de milhões de pessoas. A gente tá morto e não se deu conta disso. Tem gente defendendo a morte dos outros e a gente não faz nada. A gente não se nega a dar ibope, não se nega a tirar esse tipo de pessoa do ar a força, se for preciso, não se nega a trabalhar junto, não se nega a fazer parte disso, porque a gente tem conta pra pagar, comida pra comprar, filho pra criar. A bala que sai de cada arma é paga com o dinheiro que a gente recebe pelo trabalho que a gente não se nega a fazer. O gatilho é um só, mas puxado por centenas de milhões de dedos. Bilhões, em escala global. E tudo o que a gente sabe fazer é ignorar. Ou dizer que não é problema nosso quando ignorar é impossível. Ou fazer textão de facebook (como esse aqui) ou xingar muito no twitter. E o que a gente se nega a fazer é, talvez, o mais necessário: impedir que o outro morra. Quando o outro morre, quem morre somos nós. A gente tá se deixando morrer e não tá percebendo. A gente tá aplaudindo a própria morte e com a arma ainda em mãos.

Carlos Carvalho, jornalista assistidor compulsivo de filmes. Queria morar em uma história de José Saramago, do Guimarães Rosa ou num poema do Drummond. Nasceu destro, mas é de esquerda. Facebook

Imagem: Salvador Dalí – A Face da Guerra

Diário de uma greve

Deflagrada em assembleia realizada no último dia 13 de março no MASP, a atual greve dos professores do Estado de São Paulo, a maior dos últimos 15 anos, embora não tenha conseguido paralisar 100% da categoria vem demonstrando grande fôlego. Pressionada pelas péssimas condições de trabalho, baixa remuneração, ausência de um plano de carreira e um contexto geral de violência, a classe vê-se acuada diante de novos ataques em seus direitos. É necessário, porém, que a categoria entenda que este é só o começo da luta. A última grande mobilização  deve ser encarada como parte de um primeiro passo. Não será fácil arrancar algo deste governo, a tanto tempo no poder, acostumado a blindagem midiática e a não responder às demandas de nossa e de outras categorias. Somente uma grande capacidade de mobilização e resistência poderá surtir algum efeito, assim como ocorreu no estado do Paraná.

O ato da última sexta-feira (27/03), que conseguiu colocar na rua mais de 60 mil docentes, sendo grande parte do interior paulista, aliado ao já então longo período de paralisação, fez com que uma comissão do sindicato dos professores, incluindo a presidente do mesmo, Profa. Maria Isabel Noronha, fosse ouvida pelo atual secretário de educação, Herman Voorwal, na última segunda-feira.

Muito embora o secretário não tenha acenado para as questões relacionadas anteriormente, o fato de receber os representantes da categoria e firmar compromisso de encaminhar projeto à Câmara dos Deputados de fim da duzentena para professores contratados por período determinado (docentes denominados de Categoria O), demonstra o desconforto que a mobilização vem causando no governo estadual, afinal, é sabido que tanto os governos Alckmin quanto Serra não ouvem e nem negociam com as categorias do funcionalismo público. Essa duzentena consiste no impedimento obrigatório do docente retornar as atividades, por duzentos dias letivos, o que equivale a um ano letivo, ao termino do seu contrato, que é prorrogável por no máximo mais um ano.

Fechamento de salas de aula

O corte de R$ 1 bi do orçamento do Estado de São Paulo para 2015 na educação gerou: o fechamento de 3900 salas de aula; corte das verbas para a manutenção dos prédios escolares; falta de material pedagógico; falta de material de escritório e de higiene pessoal, como sabonete e papel higiênico. Esse corte no orçamento causou ainda corte de pessoal de apoio, como inspetores e equipes de limpeza. Foram cortados também, em média, um coordenador pedagógico por escola. O fechamento das salas deixou muitos professores desempregados (20 mil temporários, sobretudo os de categoria O), abalando a estabilidade dos professores das demais categorias, devido à diminuição das aulas.

Dividir e governar

A demora na realização de concursos para ingresso no Magistério decorreu num grande número de professores contratados, algo em torno de 40% a 50% da categoria. Esses professores contratados detinham os mesmos direitos dos efetivos, como férias, quinquênio e atendimento pelo IAMSPE. A diferença residia basicamente na atribuição de aulas, pois o contratado escolhe suas turmas após a escolha dos efetivos. Com a criação da Lei Complementar 1093/09 de 16 de julho de 2009, que dispõe da contratação por tempo determinado, os professores contratados foram divididos em categorias. Os contratados, que até a promulgação da lei e que tinham aulas atribuídas naquele permaneceram com os mesmos direitos, passando a serem denominados de Categoria F. A partir da lei, quem não tinha aula atribuída passou a ser denominado Categoria O. Esta última categoria criada perde inúmeros direitos, como férias, atendimento médico pelo IAMSPE, redução do limite de faltas médicas (até duas por ano), entre outros. O professor desta subcategoria enfrenta ainda o desemprego a cada dois anos, período no qual o docente não pode renovar seu contrato, para que cumpra sua duzentena. Nesta conjuntura de fechamento das 3900 salas de aula na rede estadual, o professor categoria O foi mais duramente atingido, pois 20 mil docentes ficaram sem aula, literamente desempregados. Além disto, muitos efetivos e Fs foram obrigados a completar a jornada em duas ou mais escolas, pois não conseguiram completar suas jornadas nas suas unidades sedes.

Política de conflitos: dividir para governar

Como os sucessivos ataques à nossa classe levou-nos a uma divisão em categorias, e cada nova categoria criada difere das demais por possuir menos direitos, embora tenha os mesmos deveres, tornou-se muito difícil mobilizar todo o grupo, mesmo que soframos juntos diariamente. O assédio moral constante, os fracassos pedagógicos, a violência generalizada e a perda de direitos buscou formar uma classe inerte e amedrontada. Só quem vive por trás dos muros da escola entende toda a sorte assédio moral que sofremos. A falta de preparo e planejamento para o acolhimento dos alunos nas suas reais necessidades colaboram para os casos de indisciplina e violência. Considero, contudo, a atual conjuntura educacional do Estado de São Paulo uma consequência trágica, porém calculada de uma verdadeira e velada política de Estado.

A estratégia do governo

Com a frieza que lhe é peculiar, Alckmin nega a envergadura desta greve como quem nega o colapso do sistema Cantareira, agindo sob a confiança depositada pelo seu cego eleitorado e o apoio dos meios de comunicação. Desta forma, negando uma crise aparentemente ela não existe.

Contrariando a Constituição Federal, o governo paulista ordena que as Diretorias de Ensino obriguem os Diretores das Unidades Escolares impedirem a atuação dos comandos de greve (comitivas formadas por professores em estado de greve, sindicalizados ou não, que visitam as escolas que ainda não aderiram ao movimento), a simples divulgação da greve, e a tentativa de transmitir às comunidades a ideia de que está tendo aula normal.

Para golpear o atual movimento grevista, o governo ainda resolveu “soltar” o malfadado bônus para as escolas que tenham atingido as metas do IDESP (espécie de nota atribuída às escolas por meio de exame aplicado aos alunos de 7º e 9º anos do Ensino Fundamental e do 3º ano do Ensino Médio), o que equivalerá a aproximadamente metade dos professores. A política de bônus consiste numa armadilha para a classe, pois além deste valor não estar atrelado ao salário, não sendo incorporado à aposentadoria a falta de transparência das regras para o pagamento geram mais divisões no interior da classe. Até a poucos dias o boato que corria na rede estadual era que este ano o governo não pagaria o bônus. Pagá-lo agora significa uma tentativa de esvaziar a assembleia do dia 02/04, véspera de feriado, o que pode incentivar que muitos docentes viajem, ao invés de participarem da assembleia.

Está em nossas mãos

Não tem arrego! Esta é a palavra de ordem dita e ouvida por aqueles que não querem ceder às chantagens do governo. Mais do que uma greve por melhorias salariais, o que é extremamente necessário, esta greve tornou-se, pela sua magnitude, uma lição de cidadania. O contato entre docentes , comunidade e estudantes está promovendo um diálogo como a muito não visto. Temos contado com a presença de inúmeros estudantes em nossos atos e em algumas situações tem sido promovidas aulas públicas sobre a greve para os estudantes, como ocorrido ontem no bairro de São Miguel Paulista. Que seja só o começo.

Por Cris dos Santos,  professora da rede estadual de ensino de SP e parte do comando de greve

 Foto: Giovanna Consentin / Jornalistas Livres

Por favor, não matem mais Petersons

Ontem (9) morreu o adolescente Peterson Ricardo de Oliveira, de 14 anos, que estava em coma desde a semana passada após ter sido  espancado pelos colegas, por ser filho de um casal homossexual, numa escola pública em Ferraz de Vasconcelos (SP).

Dá um choque, não dá? Ver que até quem está em volta da vida de pessoas homossexuais pode sofrer a mesma discriminação que elas. Muitos se assumem e carregam seu próprio peso. Enfrentam as piadas rotineiras, os xingamentos, o medo das consequências de segurar a mão da pessoa que ama. Andar de mãos dadas, algo tão comum para casais heterossexuais, é um dos maiores símbolos de resistência para os casais LGBTs. Quando você assume sua condição sexual, para os intolerantes, está dando ‘à cara a tapa’.

Ontem o Peterson morreu. Filho de um casal homossexual, que para se tornar um casal e adotar um filho, provavelmente, teve de enfrentar todas as etapas que um homossexual assumido enfrenta. A própria aceitação, conflitos familiares, perda de “amigos”, exclusões no ambiente de trabalho, constrangimentos e violências nas ruas, burocracias e dificuldades para adotar uma criança e constituir uma família. Todas essas situações doem muito. É como se cada dedo apontado tivesse lâminas nas pontas e conseguisse te rasgar mais um pouquinho. Como se cada olhar de reprovação tivesse fogo e te queimasse ao ser lançado. Ser homossexual, muitas vezes, é viver estancando o sangue. E dói, dói muito.

Só queria dizer que o Peterson morreu. Não queria dizer, na verdade. Não queria que tivesse acontecido. Não é culpa de vocês, pais. Não é. Não importa o que sintam ou pensem. Não importa se foram discriminados pelo amor de vocês. A culpa não é de vocês. Por favor. A culpa não é do amor. A culpa é da falta dele. A culpa é da intolerância. A culpa é da merda do ser humano que não consegue de forma alguma respeitar o próximo. Quem aqui está te pedindo aceitação? Está te pedindo apoio? Está te pedindo compreensão? Ninguém está pedindo nada disso, apenas respeito.

Apenas peço que não bata mais no Peterson. Qualé que é? Ele tem só 14 anos! Qual o teu problema? Deixa o moleque de boa. Não o condene porque não existe razão pra isso. Não o machuque, logo agora que ele encontrou um lugar bacana pra viver, com gente disposta a dar amor pra ele. Não mate mais Petersons. Não mate mais pais. Não mate mais.

Ontem o Peterson morreu. E eu morri um pouco também. Seus pais, provavelmente, morreram por inteiro. Porque nossa pele quase se acostuma com as pancadas, com os rasgos, com a dor. Mas, não existe nada mais dolorido do que ver sua raiva depositada em quem amamos. Porque preferimos que nos arregacem por completo, do que, que o façam com quem amamos.

Vocês que mataram o Peterson, mataram todos nós. Ele só tinha 14 anos. Tinha encontrado um lar e uma família que estava disposta a dar amor. Por que?

8 de março, e lá vamos nós

Eu queria escrever sobre o Dia da Mulher? Não.

Primeiro, porque já escrevi uma vez e pra mim é o suficiente.

Depois, porque cansa falar a mesma coisa todo ano, de ter uma data específica para fazer um tipo de Revisão Telecurso 2000, um supletivo, e tentar resumir tudo o que todas as feministas falaram o ano inteiro até babar. Sem falar na pressão de não deixar essa data passar sem promover uma conscientização sobre os direitos da mulheres, como se fossem dar atenção ao que falamos só porque é 8 de março. Mas não, não vão.

E aí entra o terceiro motivo que me dá vontade de fugir deste planeta no Dia da Mulher: porque eu sei que vão despejar, em um dia só, um monte de besteiras, piadas e clichês fantasiadas de “homenagem”, justamente o tipo de coisa que a gente tenta mostrar o ano inteiro que é errado, que é machista, que é escroto. Aparentemente machismo no Dia da Mulher é a rabanada do Natal ou o ovo de chocolate da Páscoa: não pode faltar. E se for para responder e apontar cada mensagem ou atitude equivocada que acontece todo 8 de março, a gente não faz mais nada da vida.

E, por último, não queria escrever porque cairia na repetição. Sinto que o importante sobre esta data já foi escrito por gente mais competente do que eu para abordar essas questões. As coisas que eu teria para escrever seriam justamente aquelas que as feministas já estão peludas de falar 24 horas por dia, 7 dias por semana. Não teria nada a acrescentar.

Mas aí eu, que cago para coerência, resolvi quebrar a minha meta de não falar sobre o Dia da Mulher este ano.
 
No ano passado, topei dar uma entrevista sobre as “homenagens” problemáticas da data, mas talvez por minhas respostas terem sido bravas, motivadas pelo cansaço que dá falar sobre esse mesmo assunto, só um pedaço dela acabou sendo publicada.
 
Resolvi então publicar minhas respostas na íntegra, já para ficar bem claro o meu posicionamento sobre as merdas que a gente ouve nesse dia e resumir essa questão de que tanto falamos e teimam em não ouvir ou entender.
 
***
 
 
1. Qual é a origem do Dia Internacional da Mulher?

Dia da Mulher surgiu como uma data de protesto, liderada por operárias, o que é muito emblemático: em sua origem está o grito contra a dominação burguesa e masculina.

 
2. Por que uma data de protesto se tornou um dia de presentear mulheres?

O que é que o capitalismo não sequestra para transformar em uma data de consumo, não é mesmo?

 
3. Dar presentes para as mulheres no dia 8 de março é, na verdade, uma atitude machista?

Não necessariamente. Pode ser uma ingenuidade, ainda que, mesmo sem maldade, a pessoa esteja contribuindo para esvaziar o sentido da data. É importante retomar a importância desta data, de luta pelos direitos das mulheres, justamente para conscientizar as pessoas de que o Dia das Mulheres não existe para dar flores e presentes, nem para homenagear a “beleza” e a “feminilidade”. O machismo é muito maior do que os presentinhos do Dia da Mulher.

4. Que atitudes você acha que são ofensivas às mulheres nesse dia? Existe alguma homenagem que seja aceitável?

As atitudes ofensivas às mulheres no Dia da Mulher são as mesmas ofensivas em todos os outros dias do ano. Só pra citar alguns exemplos: tentar estabelecer um ideal de mulher, ainda que elogiosamente, é violento porque exclui um universo de mulheres (as não-mães, as fora do padrão de beleza, as negras, as gordas, as mulheres trans*); colocar constantemente a mulher no papel de enfeite, como se só existíssemos com a função de ser bonita; invadir o espaço da mulher; ser condescendente e invalidar o que a gente diz, quase como se mulheres fossem crianças que não devessem ser levadas a sério; sem falar na violência, nos atos e discursos cotidianos que reforçam uma cultura que torna o estupro aceitável, no racismo, na discriminação no mercado de trabalho, na representação estereotipada na mídia, etc. Enfim, não é muito difícil imaginar o que seja ofensivo.

Agora, essa pergunta de que homenagem seria “aceitável” dá a impressão que quem questiona essas homenagens são ditadoras intolerantes e que quem faz as “inocentes” homenagens é quem está sendo oprimido por não se adequar. E não é assim. Não existe alguém reprovando e reprimindo violentamente as homenagens ofensivas do Dia da Mulher; pelo contrário, são essas homenagens que nos diminuem violenta e sistematicamente, não sozinhas, mas como parte de um todo – um todo machista, de dominação e ódio às mulheres.

5. Então qual deveria ser o jeito correto de celebrar o Dia Internacional da Mulher?

 
Acho engraçado como as pessoas parecem mais preocupadas em não serem “condenadas” com a homenagem errada do que darem atenção às questões que REALMENTE importam no Dia da Mulher. Como se fossem as feministas que tivessem criado um problema ao dizer que não queremos a rosa, mas sim acabar com um sistema que nos oprime, nos diminui, nos nega humanidade e nos mata.
 
Tenho que dizer que o problema não é rejeitar essas homenagens, o problema é o que essas homenagens estão tentando ocultar. Discutir que tipo de presente pode ou não pode, qual é o jeito “certo” de homenagear as mulheres nesse dia é continuar fugindo das questões que realmente deveriam ser discutidas nessa data.

A nossa luta não é para definir como “celebrar” o Dia da Mulher. A nossa luta é por direitos básicos e fundamentais, como a autonomia ao nosso próprio corpo que as leis (feitas por homens) nos negam historicamente, nos lançando para o risco de aborto ilegais que matam mulheres, especialmente mulheres negras e pobres. A nossa luta é por direitos trabalhistas, é pela presença da mulher na política, é pelo espaço público que também nos é negado quando somos acuadas por assédio disfarçado de “cantada”. A nossa luta é pelas mulheres trans* massacradas diariamente por uma sociedade transfóbica que lhes nega humanidade. A nossa luta é para quebrar o padrão de beleza que nos aprisiona, os papéis de gênero que nos limitam, os discursos onipresentes que validam a violência sobre nossos corpos.

O debate que queremos colocar na mesa para nós é uma questão de vida e morte, não um debate que se restringe ao “jeito certo de celebrar o Dia da Mulher”.

 
6. O que precisa mudar para que as mulheres possam, efetivamente, comemorar com um dia específico no ano?
 
Melhor do que poder comemorar um dia específico no ano é a possibilidade de ter a vida respeitada integralmente, todos os dias do ano e em todos os anos depois dele.
 
Aline Valek é escritora e autora independente.

 

Falta água e falta Estado

Não há como negar que a falta d’água na sua casa e no seu bairro passe pela responsabilidade imediata do governador Geraldo Alckmin e de seu partido, a frente do estado há duas décadas e a caminho de completar 24 anos. É inadmissível que um estado dependa exclusivamente de condições climáticas para garantir o abastecimento do bem mais essencial a vida.

O governo estadual teve nas mãos, desde a ditadura militar (e aqui a responsabilidade se divide), a tarefa de ampliar o número de reservatórios que abasteceriam a Grande SP e as cidades no entorno, incluindo o interior. Existia um projeto, desde os anos 60, para serem construídos mais 7 reservatórios, prevendo então o crescimento da população nessas regiões.

Sabemos que desde os anos 70 a população paulista mais que dobrou (passando de 18 mi para 41 mi, segundo os dados do IBGE em 2010) e temos a mesma oferta de água, sem ter aumentado nem 1 metro cúbico.

O  Sistema Cantareira, maior sistema destinado  à captação e tratamento de água entre os demais administrados pela Sabesp (Cia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) e que hoje abastece cerca de 6,5 milhões de pessoas da maior região metropolitana da federação,  previa o abastecimento de água somente até o ano 2000. A partir daí, em 2004, um acordo foi firmado pela Sabesp e pelo Consórcio PCJ (Consórcio das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí) para reduzir a dependência do sistema, que poderia entrar em colapso anos depois se nada fosse feito. O resultado desse acordo pode ser visto ao abrir a torneira.

Aviso é o que mais se teve nos últimos anos. Em 2009, o alerta foi dado ao Governo do Estado no relatório final do Plano da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê sobre a fragilidade do Sistema Cantareira, e o instruía a tomar medidas para evitar o colapso do abastecimento. Abra a torneira de novo e veja se esse aviso surtiu efeito.

Sim, é a maior seca dos últimos anos, décadas e talvez séculos, mas um estado que se autointitula como a locomotiva do país não pode, de forma alguma, depender exclusivamente das chuvas (ou, como preferem pensar alguns, de São Pedro).

Saindo da ‘palmeirascorinthianização’ da política, é óbvio que o Governo Federal e o Congresso têm MUITA responsabilidade nisso, pois a total falta de controle com o desmatamento e a aprovação do Código Florestal (que vem ainda aumentando o desmatamento na Amazônia e nos outros biomas) endeusando o agronegócio (que consome 70% dos recursos hídricos do país) tem ligação direta, pois o clima em São Paulo tem muita influência da região amazônica com os chamados “rios voadores”.

A população, seja ela pessoa física ou jurídica, também não se isenta de responsabilidade, com seu descarte ilegal de lixo e degradação dos mananciais.  Mas até que ponto podemos demonizar a tiazinha que jogou um sofá no córrego onde mora com os 7 filhos e o empresário que descartou ilegalmente toneladas de poluentes no rio Tietê se os mecanismos que podem coibir tais ações são de responsabilidade do poder público? As periferias, onde a afirmação de descarte irregular de lixo é mais forte,  a presença do estado é tão ínfima quanto o nível de água das represas que as abastecem. Presença essa em políticas públicas nas questões de educação, moradia, saúde pública, segurança e uma série de outras de bem comum. De onde o acesso à informação – por meios acadêmicos e não televisivos –  é deficitário, não poderemos esperar magníficos projetos de conscientização ambiental, o que acarretará em cada vez mais moradias em locais inapropriados e degradação dos meios produtores de água.

No caso das empresas, no qual os empresários não podem se beneficiar tanto do discurso da falta de informação, o Estado também deve estar presente na sua questão fiscalizatória. Em fazer cumprir as leis ambientais vigentes no País, Estado ou Município. Ora, até quando continuarão a despejar milhões de toneladas de poluentes nos rios sem nenhuma punição ou método alternativo para evitar a degradação?  Até quando empresas exploradoras de bens naturais serão cada vez mais aceitas em locais já saturados? Ou a poluição deles é  mis benéfica por estarem ‘aquecendo a economia’ e ‘gerando empregos’?  Afinal, elegemos representantes para que cumpram o papel do interesse público em ambos os lados, não apenas nos mais fracos.

A Sabesp e o Governo Estadual estão jogando a responsabilidade no colo do “consumidor” (sim, porque água para eles é uma mercadoria), o que é extremamente errado, pois o consumo doméstico responde por cerca de 10% a 15% de toda a água, enquanto, como disse acima, as irrigações do agronegócio ficam com 70%. E esse setor vai de vento em popa com a atual ministra, Katia Abreu, que já desapareceu com os latifundios. Pelo menos para ela.  Apenas no governo Lula (2003-2010), os latifúndios ganharam 100 milhões de hectares.

Anos de olhos fechados, politicagem e lobby estão custando caro para muitos. Investimentos emergenciais e bilionários estão sendo feitos, mas é escancarada a dificuldade de recuperar o que já foi perdido. Embora em tom de ironia, a questão agora é realmente torcer para que São Pedro  mande chuva no lugar certo e alivie a culpa dos pecadores. A crise hídrica não é um fator específico de São Paulo, mas do País. E nem adianta sermões de que “comecemos a olhar nosso umbigo agora que depois é tarde”, porque os mesmos políticos foram eleitos, e outros de pouco engajamento ambiental estão em escala maior em 2015. Talvez o masoquismo político seja excitante.

Por Bruno Silveira e Eliézer Giazzi