O lucro do Santander e o déficit da Previdência

A manchete foi mais ou menos assim “Santander aumenta seu lucro; números do Brasil compensam os resultados ruins no Reino Unido”.

Saiu no The Independent e falava sobre a queda de 14,7% no lucro do banco na região após o Reino Unido taxar em 8% as instituições bancárias, aliado à desvalorização da libra. Mesmo assim o lucro mundial do banco espanhol aumentou 4%, atingindo 6,2 bilhões de euros (21 bilhões de reais). Como pode?

No G1 surgiu a manchete “Santander Brasil tem lucro líquido de R$ 7,339 bilhões em 2016”. Mesmo em ano de crise, o lucro líquido (grana livre, depois de pagar impostos, aluguéis, salários, tudo) aumentou 10,8% comparado ao de 2015. Como pode?

Nosso país tem uma dívida pública absurda, em torno de R$ 3,5 trilhões. Assim como dívida alta, temos juros altos, o que faz lucrar muito aqueles que detêm títulos da dívida.

O Estado brasileiro paga muito dinheiro em juros dessa dívida anualmente. Parte desses recursos vem de uma DRU (Desvinculação de Receitas da União) que retira 30% das receitas da Previdência Social e é repassada para pagar os juros da dívida pública.

Alguns dos maiores credores (detentores de títulos da dívida pública) do Estado brasileiro são os bancos. Os mesmos que registram lucros recordes mesmo em ano de crise, quando (quase) ninguém mais está lucrando.

33% do lucro global do Santander veio do Brasil em recessão, país que tem no Congresso Nacional a atuação de lobistas que atuam para que o Estado não taxe os bancos como fez o Reino Unido, sob a desculpa de que isso afastaria os investidores (que não se afastaram do Reino Unido mesmo após a taxação de 8%).

A tal Previdência “deficitária” repassa suas receitas para garantir o bem estar de investidores que vivem longe do Brasil. A reforma da previdência apresentada por Temer, a qual vai passar no mesmo Congresso dos lobistas, vai fazer com que cada pessoa que trabalha nesse país pague o lucro de bancos da Europa e de demais países centrais no capitalismo.

As grandes navegações do Século XXI chegaram com uma roupagem nova e já estão levando o que sobrou.

Consumo de narguilé entre adolescentes preocupa autoridades de saúde

Com o cerco se fechando em volta do cigarro, a indústria do tabaco tenta captar novos públicos para manter seus lucros. Dentre as principais apostas para atrair consumidores cada vez mais cedo está o narguilé. Com recipientes coloridos e essências perfumadas, o produto vem sendo consumido em grande parte por adolescentes, colocando autoridades de saúde em alerta.

De acordo com dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2013, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), no Brasil pelo menos 212 mil pessoas fazem uso de narguilé. Comparando os dados da PNS aos da Pesquisa Especial de Tabagismo, feita em 2008, constatou-se que, num período de cinco anos, de 2008 a 2013, a proporção de homens fumantes na faixa dos 18 aos 24 anos que consomem narguilé subiu 139%, passando de 2,3% para 5,5%.

Intitulada “Parece inofensivo, mas fumar narguilé é como fumar cem cigarros”, uma campanha do Ministério da Saúde busca informar sobre os riscos do consumo deste produto. Convivendo cotidianamente com fumantes nas escolas em que estudam, este tema despertou o interesse dos adolescentes da primeira turma da Oficina de Introdução ao Jornalismo e Audiovisual Independentes do projeto “Expressão Comunitária”, que realizou uma reportagem em vídeo para elucidar sobre o assunto.

Acompanhe o trabalho realizado pelas alunas Emilly Martins, Mayara Alves, Marina Sousa, Nathaliê Roberta e Yara Silva sobre a introdução do narguilé entre adolescentes e seus principais malefícios para o corpo.

“É preciso ter coragem para fazer investimentos que mudam paradigmas”, diz Haddad

O Candeia estreia hoje um novo formato de entrevista, desta vez com a presença de entrevistadores. Para isso, fomos até a Prefeitura de São Paulo conversar com o prefeito Fernando Haddad (PT) para questioná-lo sobre os principais pontos de sua gestão, como mobilidade urbana, programas sociais e política.

Chegando aos seus 3 anos de mandato, o ex-ministro da Educação vem enfrentando pontos polêmicos desde seus primeiros feitos, como o aumento da tarifa do transporte coletivo da cidade, a implantação de ciclofaixas, a criação corredores de ônibus e programas sociais inéditos, como o ‘Braços Abertos’. Com sua política considerada progressista em uma cidade historicamente conservadora, como Fernando Haddad está enfrentando o desgaste político e a baixa popularidade para a as eleições do ano que vem, que terá como provável adversária a ex-prefeita Marta Suplicy, recentemente desfiliada do Partido dos Trabalhadores?  Com críticas também pela esquerda, Haddad conseguirá reverter o jogo?

No pouco tempo que tivemos para tratar de uma gestão,  Haddad nos recebeu em seu gabinete para esclarecer tais pontos e contar como está se preparando para enfrentar uma segunda disputa para a Prefeitura da maior cidade da América Latina.

Entrevista feita por Eliézer Giazzi, editor e repórter do Candeia, com a participação de Tadeu Breda, do site Outras Palavras. Acompanhe.

A favor das ciclovias, ativistas prometem novos protestos em São Paulo

Na última sexta-feira (27/3) foi realizado o primeiro ato contra a determinação de paralisação das ciclovias na cidade de São Paulo. A medida de criação de 400km de ciclovias adotada pela Prefeitura tem sido alvo de duras críticas por parte da população que valoriza mais os veículos automotores individuais. Alguns, alegam que as ciclovias são mal feitas e com planejamento precário; outros, que não há um número alto de ciclistas que justifique a criação de tais faixas. Mas o fato é que a criação dessas faixas tem viabilizado a utilização de um novo tipo de transporte não-poluente e a gradativa substituição do carro, muito valorizado em gestões passadas.

A manifestação foi organizada por cicloativistas e reuniu cerca de 350 pessoas, segundo medição da Polícia Militar. Já os ativistas relatam o comparecimento de 7 mil pessoas. Durante a manifestação, o grupo recebeu a notícia de que a liminar que impedia a continuidade das obras tinha sido derrubada pelas mãos do desembargador José Renato Nalini, presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo e responsável pela suspensão da liminar de segurança que inativaria a Ciclovia da Madre Cabrini, na Vila Mariana.

A guerra continua

O Ministério Público estadual abriu novo inquérito civil para investigar “eventuais gastos excessivos” com a construção da malha cicloviária da capital. Segundo informações do site Bike Legal, o novo inquérito usa como base informações da revista Veja SP. A Prefeitura informa que prestará todas as informações necessárias “como a suposta irregularidade contratual, já afastada pelo juiz de primeira instância em outra ação civil pública”.

Uma nova manifestação está marcada para o dia 24 de abril, também na Praça do Ciclista, e já conta com 400 confirmações no Facebook.

 Acompanhe como foi o primeiro ato na Avenida Paulista, na cobertura do Candeia:

“O Código Florestal brasileiro serviu de grande anistia aos desmatadores”, diz geógrafo

Segundo matéria d’O Globo em setembro de 2012, o Brasil exporta cerca de 112 trilhões de litros de água doce por ano. Essa exportação não é de água diretamente e sim de produtos agrícolas (commodities), produtos de baixíssimo valor agregado, como soja, carne bovina, café, açúcar…

É possível, a partir desses dados, estabelecer uma ligação direta com o desmatamento da Amazônia e outros biomas (primeiro, com o próprio desmatamento para a pecuária, que diminui o volume de umidade lançada na atmosfera e, por último, dando lugar às plantações de soja, que empurram os pecuaristas a avançar ainda mais para dentro das florestas).

Os afrouxamentos do controle estatal (via sucateamento dos órgãos fiscalizadores e aprovação do Código Florestal, entre outros fatores) se tornam fatores essenciais para a crise hídrica no Sudeste.

Em São Paulo, as tentativas do governador Geraldo Alckmin para não ser responsabilizado pela grave crise, dizendo que suas obrigações foram ordenadas pela ANA (Agência Nacional de Águas) apenas mostram a frágil estratégia de alguém que, há mais de uma década, deveria ter chamado a responsabilidade para si e ter buscado, desde então, outras alternativas para o colapso já previsto por especialistas e detectado pela própria Sabesp posteriormente. Nada foi feito, como sabemos hoje.

Dilma Rousseff tem responsabilidade nisso, também, por não ter priorizado o combate ao desmatamento, bem como sua indicada para o Ministério da Agricultura, Kátia Abreu (de quem Dilma foi madrinha de casamento no início de fevereiro deste ano). A ministra foi presidente da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), faz parte da chamada “bancada ruralista” e recentemente disse à Folha que os índios invadem as terras dos ruralistas e que não existem mais latifúndios no Brasil (quando, na verdade, cresceram).

Para esclarecer como está a situação de desmatamento no Brasil, o Candeia entrevistou para o Canal DoisP o geógrafo e diretor de Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica Mário Mantovani. Na entrevista acima foram discutidos temas como: código florestal e as legislações vigentes, alternativas para combater à crise hídrica e perspectivas sobre o desmatamento para os próximos anos.

Falta água e falta Estado

Não há como negar que a falta d’água na sua casa e no seu bairro passe pela responsabilidade imediata do governador Geraldo Alckmin e de seu partido, a frente do estado há duas décadas e a caminho de completar 24 anos. É inadmissível que um estado dependa exclusivamente de condições climáticas para garantir o abastecimento do bem mais essencial a vida.

O governo estadual teve nas mãos, desde a ditadura militar (e aqui a responsabilidade se divide), a tarefa de ampliar o número de reservatórios que abasteceriam a Grande SP e as cidades no entorno, incluindo o interior. Existia um projeto, desde os anos 60, para serem construídos mais 7 reservatórios, prevendo então o crescimento da população nessas regiões.

Sabemos que desde os anos 70 a população paulista mais que dobrou (passando de 18 mi para 41 mi, segundo os dados do IBGE em 2010) e temos a mesma oferta de água, sem ter aumentado nem 1 metro cúbico.

O  Sistema Cantareira, maior sistema destinado  à captação e tratamento de água entre os demais administrados pela Sabesp (Cia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) e que hoje abastece cerca de 6,5 milhões de pessoas da maior região metropolitana da federação,  previa o abastecimento de água somente até o ano 2000. A partir daí, em 2004, um acordo foi firmado pela Sabesp e pelo Consórcio PCJ (Consórcio das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí) para reduzir a dependência do sistema, que poderia entrar em colapso anos depois se nada fosse feito. O resultado desse acordo pode ser visto ao abrir a torneira.

Aviso é o que mais se teve nos últimos anos. Em 2009, o alerta foi dado ao Governo do Estado no relatório final do Plano da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê sobre a fragilidade do Sistema Cantareira, e o instruía a tomar medidas para evitar o colapso do abastecimento. Abra a torneira de novo e veja se esse aviso surtiu efeito.

Sim, é a maior seca dos últimos anos, décadas e talvez séculos, mas um estado que se autointitula como a locomotiva do país não pode, de forma alguma, depender exclusivamente das chuvas (ou, como preferem pensar alguns, de São Pedro).

Saindo da ‘palmeirascorinthianização’ da política, é óbvio que o Governo Federal e o Congresso têm MUITA responsabilidade nisso, pois a total falta de controle com o desmatamento e a aprovação do Código Florestal (que vem ainda aumentando o desmatamento na Amazônia e nos outros biomas) endeusando o agronegócio (que consome 70% dos recursos hídricos do país) tem ligação direta, pois o clima em São Paulo tem muita influência da região amazônica com os chamados “rios voadores”.

A população, seja ela pessoa física ou jurídica, também não se isenta de responsabilidade, com seu descarte ilegal de lixo e degradação dos mananciais.  Mas até que ponto podemos demonizar a tiazinha que jogou um sofá no córrego onde mora com os 7 filhos e o empresário que descartou ilegalmente toneladas de poluentes no rio Tietê se os mecanismos que podem coibir tais ações são de responsabilidade do poder público? As periferias, onde a afirmação de descarte irregular de lixo é mais forte,  a presença do estado é tão ínfima quanto o nível de água das represas que as abastecem. Presença essa em políticas públicas nas questões de educação, moradia, saúde pública, segurança e uma série de outras de bem comum. De onde o acesso à informação – por meios acadêmicos e não televisivos –  é deficitário, não poderemos esperar magníficos projetos de conscientização ambiental, o que acarretará em cada vez mais moradias em locais inapropriados e degradação dos meios produtores de água.

No caso das empresas, no qual os empresários não podem se beneficiar tanto do discurso da falta de informação, o Estado também deve estar presente na sua questão fiscalizatória. Em fazer cumprir as leis ambientais vigentes no País, Estado ou Município. Ora, até quando continuarão a despejar milhões de toneladas de poluentes nos rios sem nenhuma punição ou método alternativo para evitar a degradação?  Até quando empresas exploradoras de bens naturais serão cada vez mais aceitas em locais já saturados? Ou a poluição deles é  mis benéfica por estarem ‘aquecendo a economia’ e ‘gerando empregos’?  Afinal, elegemos representantes para que cumpram o papel do interesse público em ambos os lados, não apenas nos mais fracos.

A Sabesp e o Governo Estadual estão jogando a responsabilidade no colo do “consumidor” (sim, porque água para eles é uma mercadoria), o que é extremamente errado, pois o consumo doméstico responde por cerca de 10% a 15% de toda a água, enquanto, como disse acima, as irrigações do agronegócio ficam com 70%. E esse setor vai de vento em popa com a atual ministra, Katia Abreu, que já desapareceu com os latifundios. Pelo menos para ela.  Apenas no governo Lula (2003-2010), os latifúndios ganharam 100 milhões de hectares.

Anos de olhos fechados, politicagem e lobby estão custando caro para muitos. Investimentos emergenciais e bilionários estão sendo feitos, mas é escancarada a dificuldade de recuperar o que já foi perdido. Embora em tom de ironia, a questão agora é realmente torcer para que São Pedro  mande chuva no lugar certo e alivie a culpa dos pecadores. A crise hídrica não é um fator específico de São Paulo, mas do País. E nem adianta sermões de que “comecemos a olhar nosso umbigo agora que depois é tarde”, porque os mesmos políticos foram eleitos, e outros de pouco engajamento ambiental estão em escala maior em 2015. Talvez o masoquismo político seja excitante.

Por Bruno Silveira e Eliézer Giazzi