Amor, Plástico e Barulho (Renata Pinheiro)

Amor, Plástico e Barulho oferece algo que sempre gerará curiosidade dentro da média dos filmes brasileiros: Um olhar em close sobre uma subcultura. Neste caso, Renata Pinheiro filma o universo da música brega, em tudo que há de vulgar e também de sedutor/romântico nele. Na trama, duas participantes da “banda do momento” dessa cultura brigam pelos holofotes principais, inclusive colocando seus amantes na competição. Tudo isso ilustrado por luzes, danças, maquiagem, glitter e produtos de beleza.

Mesmo que proponha algo diferente e bastante específico dentro do cinema brasileiro, a lógica estrutural do filme é a mesma do “filme-processo” que Eduardo Coutinho tanto incentivava, com experimentos sendo editados lado a lado às sequências de função narrativa. O problema que isso acarreta é que Amor, Plástico e Barulho termina tendo mais ideias do que tempo para desenvolvê-las. Renata Pinheiro se mostra uma diretora criativa ao colocar alguns delírios de sátira ao consumismo no filme, mas está longe de criar algo tão instigante quanto o americano Spring Breakers, um controverso, complicado e ambíguo paraíso de neon sobre o fascínio pela cultura do gangsta rap. Se visto em seguida a este último, o filme de Renata parece mais excessivo do que realmente forte.

De qualquer forma, não dá pra negar que o filme possui bons momentos, muito por conta da atuação de Maeve Jinkings que se esforça em construir uma musa pop sem soar desesperada ou irônica demais. Jinkings já havia roubado a cena em O Som ao Redor, mas agora se firma de uma vez por todas como uma das grandes revelações do cinema nacional dos últimos anos. Num grau menor, não dá pra menosprezar também a sutileza de Nash Laila – que, por sua vez, não havia tido ainda um grande momento no cinema pelo menos. As duas possuem uma química impressionante, sempre sugerindo uma rixa nos olhares, mas também ajudando uma à outra no momento de aceitar que seus sonhos de celebridade são tão descartáveis quanto copos plásticos.

Vinícius Aranha, estudante, blogueiro desde os 12 anos e cinéfilo desde que resolveu alugar Sangue Negro. Fã de rock, hip hop e Brian De Palma. É criador do blog Cinematograficamente

Depois da Chuva (Cládio Marques e Marília Hughes)

Se olharmos para Depois da Chuva somente pelo seu texto, encontramos um filme bastante fácil sobre a (falta de) perspectiva política do Brasil pós-ditadura. O caminho traçado na história, junto com todas as suas metáforas, são um tanto óbvios: Logo após a derrubada dos militares, um colégio tenta levantar um grêmio estudantil enquanto, na contraluz, um garoto anarquista de classe média, com cabelos longos ao estilo Caetano, se mostra entediado e indignado com todas as esperanças das pessoas quanto à democracia que se ergue. O garoto, no entanto, vai entender que a anarquia é impraticável, e a liderança política é necessária. Mas isso não significa que ele volte a acreditar nos nossos políticos.

A alegoria do grêmio estudantil e das eleições escolares se torna ainda mais evidente enquanto nessa mesma história, paralelamente, acontecem as eleições para Presidente da República nas quais Tancredo Neves morreu logo após vencê-las. A ideia não é exatamente um problema, mas não deixa de ser um artifício muito didático colocar imagens de arquivo deste momento histórico nos intervalos da narrativa sobre os estudantes. Isso é o tipo de ideia que sufoca um pouco os personagens: Eles quase são reduzidos a meros fogos de artifício para o “documentário” de Marques e Hughes sobre o período exatamente após a ditadura militar no país.

Porém, estranhamente, essas ideias não conseguem sufocar os personagens. Depois da Chuva, na verdade, é um filme resolvido na própria construção cênica, que consegue atribuir a toda essa narrativa uma densidade bastante forte. A direção do filme se concentra no enfrentamento, no embate cara a cara (às vezes entre os personagens, às vezes com a expectativa do público). Por isso, talvez, o romance entre o protagonista e a outra personagem antissocial do colégio se torna tão plausível – há algo de muito físico e sincero nestes momentos. Outro exemplo está na cena em que o espectador pensa que deve simpatizar incondicionalmente com as opiniões violentas do protagonista, as quais ele coloca numa redação escolar onde tira nota zero, e, ao perguntar por explicações da professora, o personagem ouve dela no tom mais solene possível: “Você precisa aprender a respeitar os mais velhos”. E isso no momento não soa como uma agridoce lição de vida, e sim como um soco direto no estômago. Como num filme dirigido por Clint Eastwood.

E é nesse enfrentamento, e não nos esquemas mais espertinhos (e previsíveis) do roteiro, que Depois da Chuva encontra o grande filme sobre a ressaca pós-ditadura que ele pretendia ser. Não chega a ser tanto, mas não dá pra negar que – com um bom proveito de uma trilha sonora anarquista e da bela direção de fotografia do veterano Ivo Lopes Araújo – a dupla Cláudio Marques e Marília Hughes tem seu talento.

Vinícius Aranha, estudante, blogueiro desde os 12 anos e cinéfilo desde que resolveu alugar Sangue Negro. Fã de rock, hip hop e Brian De Palma. É criador do blog Cinematograficamente

Avanti Popolo (Michael Wahrmann)

2014 foi o ano que eu mais vi lançamentos nacionais e consequentemente foi bem mais difícil escolher qual foi o melhor deles. Mas acho que fico com esse ensaio meio incompleto e meio imperfeito sobre um cinema assombrado pelo próprio passado – neste caso, a ditadura militar – chamado Avanti Popolo.

Seguindo a linha dos documentários do finado Eduardo Coutinho, Avanti Popolo é um filme híbrido. Trata-se de um grande retrato de uma busca, apesar de não ser uma ficção. Em seu centro, uma trama precisa com um tempo e um espaço bem delimitados, sobre a relação entre um pai solitário (vivido por Carlos Reichenbach, mestre do cinema nacional que faleceu pouco tempo depois das filmagens e por isso terminou reforçando o ar fantasmagórico do filme) e seu filho, também solitário, que chegou de viagem para fazer companhia ao outro. Ambos escondem um trauma familiar ligado à época da ditadura; enquanto este se revela aos poucos, vários detalhes e intervenções colocam Avanti Popolo numa espécie de discussão em imagens sobre sua herança histórica.

É um filme cuja relação com a memória está sempre em movimento, atrás de um novo olhar sobre tudo isso, uma nova abordagem, e – por que não? – um novo cinema. Avanti Popolo não necessariamente chega a algum lugar, mas a pesquisa formal que impulsiona, com direito a recordações em filme, imagens de solidão, paródias de uma época mais ufanista e tentativas de alcançar uma dramaturgia mais simples, é instigante o suficiente para impedir que isso se torne uma frustração em vão. A grande sacada de Michael Wahrmann, porém, está em não revelar quem era a pessoa filmando as recordações em Super 8 que preenchem boa parte do ritmo da narrativa; é como se existisse um olhar além do nosso entre os espaços, um olhar de fantasma – que é o mesmo olhar que o cineasta tenta alcançar quando filma uma parede velha por mais tempo do que o espectador esperaria. Existe uma história por trás de todo lugar, e é quase impossível o cinema se desvencilhar disso.

Vinícius Aranha, estudante, blogueiro desde os 12 anos e cinéfilo desde que resolveu alugar Sangue Negro. Fã de rock, hip hop e Brian De Palma. É criador do blogCinematograficamente

Eles Voltam (Marcelo Lordello)

A sequência de abertura de Eles Voltam é um processo simples, mas incrivelmente impactante: Duas crianças de classe média são deixadas pelos pais na estrada e lentamente o filme de horror de abandono vai dando espaço a uma grande aventura onde a criança deve se levantar sozinha e encarar o mundo exterior. Cortes precisos, enquadramentos discretos, construção perfeita de suspense, fluxo emocional cuidadoso. Provavelmente estaríamos diante de um dos grandes dramas nacionais do ano.

Mas, depois disso, o filme muda um pouco o caminho do road-movie e escolhe iniciar uma espécie de esvaziamento auto-crítico, como se Marcelo Lordello tentasse arcar uma responsabilidade maior sobre a ficção de descoberta que conseguiu construir a princípio e tirar dela seu tempero de idealismo.

O que acontece no começo do filme é um evento muito mais revelador que qualquer outro momento ao longo da narrativa, e a forma como isso ecoa pela jornada moral inteira da garota protagonista lembra um pouco O Voo (de Robert Zemeckis) – que aliás também é um conto moral -, com o acidente inexplicável de avião da abertura sendo relido várias vezes pelos próprios personagens. Claro, o tom de Eles Voltam é totalmente diferente, sem transcendências ou espetáculos. O conto moral aqui, afinal, não se trata de alcançar um equilíbrio de espírito, mas de fazer um personagem isolado pelas próprias condições elitistas de sua família conhecer o Brasil afora como ele é.

Só que Lordello não traçará essa jornada sem antes pensar no quão inútil é filmar isso. Eles Voltam é um filme com o desejo de mudar o país através da ficção, porém ele aos poucos reconhecerá que este será mais um projeto que fará sucesso em festivais e então será rapidamente esquecido. Não faz sentido investir no tom heroico que se vê no prólogo ao som de “Tudo que você podia ser” do Milton Nascimento. Eles Voltam é ele mesmo um filme abandonado da própria sociedade brasileira que pretende apresentar à sua personagem. Marcelo Lordello não deixará de concretizar a jornada de mentirinha, com direito até a diálogo moralizante com o avô retrógrado e uma reconciliação necessária, mas não sem uma boa dose de momentos mortos que parece questionar tudo à sua volta.

Vinícius Aranha, estudante, blogueiro desde os 12 anos e cinéfilo desde que resolveu alugar Sangue Negro. Fã de rock, hip hop e Brian De Palma. É criador do blog Cinematograficamente

Quando Eu Era Vivo (Marco Dutra)

O primeiro ato de Quando Eu Era Vivo aponta alguns rumos pelos quais o diretor Marco Dutra poderia seguir. Existe a sugestão de paranoia urbana causada pelo enclausuramento em casas e prédios, com os gritos do louco da rua à noite chamando a atenção do protagonista, Júnior, nos minutos iniciais; existe o drama de incomunicabilidade entre pai e filho, com Júnior sendo um pai de família separado e desempregado que retorna ao apartamento de seu pai onde cresceu e termina tendo atritos na relação com ele; e o terror sobre aproximação entre nostalgia e morte, com o “filho que retorna ao lar” sucumbindo numa obsessão pelo passado que reencontra nos objetos daquele apartamento.

No meio disso, Dutra aos poucos vai injetando o sobrenatural neste cenário todo que aproximará Quando Eu Era Vivo de um terror ao estilo clássico de filmes como O Bebê de Rosemary e O Iluminado, que inspiram tantos outros até hoje. No entanto, ao contrário do que ocorre normalmente no gênero no cinema americano, Marco Dutra não se interessa pela catarse que a jornada por fantasmas e demônios fornecerá aos personagens. Não que Quando Eu Era Vivo seja anticlimático: Ele simplesmente não se jogará no absoluto horror que o espectador provavelmente esperaria.

O filme está muito mais interessado no que há de nebuloso nesse território, nas incertezas, nos mistérios, no silêncio – coisas que ajudam a tornar a atmosfera opressiva desde o início da história. Marco Dutra é tão bem-sucedido em transformar um apartamento simples de classe média numa espécie de casa mal-assombrada, que ele decide não explodir tudo isso e deixar suas sugestões perseguirem o espectador até após os créditos. Todos os rumos apontados no primeiro ato se entrelaçarão de alguma forma, mas sem os detalhes que poderiam torná-los mais substanciais. No fim das contas, nada disso faz sentido de fato. Em Quando Eu Era Vivo, o simples prazer pela construção de um universo fantástico triunfa sobre o significado que tudo isso poderia ter. Para um cinema tão mal-acostumado com filmes de gênero assim, isso é uma conquista considerável.

Vinícius Aranha, estudante, blogueiro desde os 12 anos e cinéfilo desde que resolveu alugar Sangue Negro. Fã de rock, hip hop e Brian De Palma. É criador do blog Cinematograficamente.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (Daniel Ribeiro)

Como tirar o tema da homossexualidade das margens do cinema brasileiro e trazê-lo para o mainstream? 

Hoje ‘Eu Quero Voltar Sozinho’, escolhido para representar o Brasil no Oscar 2015 de melhor filme estrangeiro, pode parecer simples na estrutura (e de fato é), mas sua proposta é muito mais complicada por tentar comercializar uma temática que ainda é um tabu na sociedade brasileira. O resultado disso é o modelo de “coming-of-age/romance indie fofinho” adaptado para a história de um jovem gay. E cego. 

Daniel Ribeiro, que faz aqui uma extensão de um curta seu produzido em 2010, teve a ideia da cegueira originalmente como uma forma de comunicar ao público que a sexualidade está longe de ser uma escolha feita com olhos, uma opção pelo que a pessoa acha “mais bonito”. Assim como essa ideia, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho parte todo de conceitos didáticos (para não dizer clichês), que sonham em seguir certo esquema para convencer o público. É o protagonista tímido fã de música clássica, é o par romântico com perfil antagônico, é o amigo que em dado momento é esquecido pelos personagens, é o vilão bully que no final é humilhado, etc. Elementos que não servem só para a identificação do espectador, mas principalmente, para deixar bem claro qual é a moral da história. 

Ao mesmo tempo, porém, este é um filme que se leva bem menos pelas regras ditadas pelo roteiro do que, simplesmente, por texturas: As luzes dos postes na rua passando rapidamente enquanto os personagens andam de bicicleta à noite, o movimento silencioso das mãos dos bullies na frente do olhar perdido do cego em paranoia, os corpos adolescentes descansando na beira da piscina à tarde…  

Considerando a deficiência do protagonista, pode parecer irônico que seja um filme tão preocupado com sensações visuais. Mas, na verdade, faz todo sentido: Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é, do início ao fim, um filme sobre sensibilidade. E que acerta mais quando busca sensibilizar ao máximo o mundo que o personagem não enxerga, do que quando quer ensinar o espectador a ser sensível.

 Vinícius Aranha é estudante e criador do blog Cinematograficamente