O encontro

Não sentia-se inteira, buscava no outro o que deveras era seu. Todavia não compreendia e vivia a tornar a angústia cada vez mais sofrida. Respirava, voltava e inquietava-se.

Não sentia-se inteiro, ansiava-se. Fazia do próximo sua fortaleza e seu refúgio, consolidava-se. Não percebia. Abrandava, para poder numa nova etapa, repetir a empreitada.

Não sentia-se inteiro, no outro impetrava a segurança que jamais encontrara em si mesmo, habituou-se com a opinião alheia. Perdeu-se, cansou-se e estagnou-se.

Não sentia-se inteira, drogava-se. Fazia da substância seu apogeu e seu alimento, retornando a primeira e alucinógena mamada, que até hoje busca nos tragos da praça.

Não sentia-se inteira, racionalizava. Colocava na razão as práticas do coração e da mente, fazendo disso uma eterna corrente. Acoplava-se sempre, arruinou-se e desanimou-se.

Não sentia-se inteira, não deixava transparecer. Aparentemente um poço de segurança, por trás da capa em volta, meras semelhanças. Desconfigurava-se, atordoava-se e nada.

Não sentia-se inteiro, timidamente vivia. Buscava nas experiências as aprendizagens absorvidas, às vezes se envolvia, passivamente ao deixar-se levar as escolhas proferidas.

Não sentia-se inteira, no outro a procura do seu próprio eu. Morta viva, sem energia.

Trombaram-se, embolaram-se. Enfim, buscavam a fuga na ferida aberta uns nos outros, permaneceram assim por um tempo, chamaram isso de sincronia. Neste brincar de esconde-esconde, submergiram-se na própria escuridão. Não aguentaram. Escolheram o existir e o caminhar só. E ao final da caverna escura e sombria, puderam encontrar o êxtase da vida, o encontro consigo mesmo.

Amigo Oculto

Meu amigo oculto não me nomeia em suas postagens, faz referência.

Jurássico nas adjetivações, hiperboliza nomenclaturas neo a la Paulo Francis, mentor defunto. Pterodactilograficamente serve-me em bandeja, trufado e decorado com cerejas por demais vistosas. No espelho de suas linhas tortas, escritas quem sabe por qual divindade, vejo-me otário, ludibriado por leituras fátuas, entre púrpura e carmim.

Sei que ele não faz por mal, é meu amigo, conquanto oculto. Reza a lenda, inclusive, que investe em meu crescimento moral e intelectual, quiçá em minha felicidade, sabedor que é das coisas certas, ainda que escritas por linhas tortas.

Amo meu amigo oculto, ele não é imaginário, transita pelas redes sociais. Amo seu desprendimento, sua destreza intelectual, sua fé inabalável em minha recuperação. Amo inclusive seus palavrões; não ofendem, são o atestado de seu bem-querer.

Mesmo quando, tortuosamente, me reduz a pó, amo-o ainda mais, pois sei que me preza e me ama também, como não? Afinal, quem ama cuida, revela o ditado; e quem ama de forma absoluta, cuida absolutamente. Por isso sei que, ao me ferir, descerebrando-me, não me quer o mal, mas o bem do qual é digno paladino.

Assim o vejo, não posso e não quero ouvi-lo de outro modo. Caso o fizesse, o veria como ressentido e maldoso, coisa que não é. E teria que rotula-lo na medida, fustigando sua carne e seu escárnio.

Mas como o faria?

Mesmo amando-o, não disporia de recursos que ele possui em abundância: inteligência singular, talento e aprumo moral. Ao contrário do que faz por mim, sendo sábio, eu jamais poderia fazer por ele, sendo tolo. Não saberia, por exemplo, como aleijá-lo para que pudesse andar; lobotomizá-lo para que pudesse pensar; desmoralizá-lo, enfim, para que pudesse se alçar ao nível dos retos, os que escrevem por linhas tortas.

Ainda bem que “Deus dá o frio conforme o cobertor”, como diz a canção de Adoniran. É por isso que, lendo-o amantíssimo, livro-me de enxerga-lo odioso. E tendo-o assim amigável, sempre interpretarei suas chibatas como de fato são: carícias amorosas de quem muito me quer.

Um grande abraço ao meu amigo oculto e, é claro, muito obrigado por me suportar!

Foto de Marcelo Morúa

Sobre o meu ódio

Não sou um libata
Sou a alma que apanha
Sem graça
E que ainda ouve em tom de ameaça
“Nego, mantenha calma”

Esse não é meu Odu
Não sou de Ifá

Eu ate acho engraçado quando me apontam o dedo perguntando de soslaio
Porque todo esse sentimento de raiva
Mas é com um tapa que me cala
Talvez seja por isso que os meus
Acabaram sendo bem sucedidos por falar em parábolas

Se tem navalha na carne
O barulho que acomete na quebrada é a bala
E logo depois o corpo escuro é jogado na vala
Era de jogador, professor, seria até diplomata
Mas faltou cota pra essa cota que a gente apaga

Me acham ridículo por falar de um genocídio
Transformam meu discurso em piada
Eu poderia não tocar nesse assunto
Porque eu amo todo mundo
Não sou eu que separo meu povo por cor ou raça
Me digam quem foi que começou com essa cagada
Mas as quebradas sagram em yorubá, em nagô
E não param…

Por Wallace de Andrade, radialista, ator, poeta, cineasta e fundador da Produtora Entrenós.

Encontro e desencontro

Transpor as linhas do imaginário e buscar no infinito as afeições por apreciações. Nunca é tão fácil quando há uma fragilidade do contorno da forma. Não que não haja opiniões formadas e idealizadas, mas o fato é estremecer com o conteúdo oriundo de fora, o externo é sempre conhecido, o interno, abismo.

Ei de me deixar são, nesse mundo tão caótico e trivial, minha parte ainda chegará, mesmo que tardia, talvez num pôr do sol que não esperaria contemplar. Enquanto isso, perdendo-se ou encontrando-se vou vivendo, arriscando de alguma forma, descobrir esse lugar que por direito é meu. Se alguém o encontrar, por favor, me avise.

Isto posto porventura, de pessoa em pessoa descobrirei o que é meu, deveras viver aqui não é tarefa fácil, uma vez que, o controle onipotente não imperou mais, abdicarei do trono e buscarei agora sempre o procedimento contestável, com minhas certezas incertas construirei o real.

Sem mais delongas anseio em dizer que sempre tive comigo a palavra em seu “signo” construção sucessivamente representado em seu “significado” de crescimento, não contaria com o fato de que pelo olhar da desconstrução que eu construiria outro lugar para findar, ainda bem.

As coisas de fora, por gentileza, as deixem aí fora, porque eu vou cuidar das coisas daqui de dentro. Porque de pouco em pouco vou encontrando o conjunto, a luz, a verdade e aí então a totalidade sobreviverá.

Por Filipe Marson
Psicólogo

Da Vida

Era tarde, continuava perdido dentro de uma vida cheia de indagações e perscrutações. Talvez empregado daquilo, realmente não entraria em contato de fato. Preso em círculos, não contemplava horizontes, medo e ansiedade o paralisavam, sempre. Mas a vontade da busca superava o sentimento anterior. Vivia.

Por amores impossíveis apaixonava-se, em histórias fantásticas, perdia-se, brincava com os desejos infantis que persistia em fantasiar, devaneava livremente seus remotos mistérios. Sonhar era lei.

Utopias a parte, tinha a parte o que era seu por direito, quiçá como naquela velha história de um boneco de madeira que ansiava ser menino de “verdade”, sua grande vontade, o de se tornar “eu” na integridade. Arriscou.

Por não ter encontrado aquilo que mais queria martirizou-se, porventura por um colo maternal que jamais teria, acender era preciso, entalhar era necessário, se despir de certas verdades era imprescindível e transcrever a vida todos os dias era rotina.

Devido o padecer do princípio de prazer, ratificou, quem seria eu senão aquele, se não galgasse por deveras dores em busca da plenitude perseverante?

Inferiu que a vida é mesmo assim, um pouco padecimento, um tanto ventura, algum tanto angústia e um estreito aprazimento. Ainda em busca de respostas parou, continuou e constatou, a vida era mesmo aquela.

por Filipe Marson, psicólogo

Não gostar de bolo é normal

Uma das principais torturas era ir a festas de aniversário. Não que não gostasse das festinhas, mas diferente da maioria dos presentes, não ia pela comida, muito menos pelo bolo. Queria ir embora antes de cantar os parabéns, assim evitaria aquela cena: você não gosta de bolo? Como alguém não gosta de bolo? E os olhos, e as explicações, sempre tão cansativas. Por que deveria gostar de bolo, afinal? Não gostava de bolo, era simples.

Não gostava dos olhares também, nem de ter que explicar os motivos de gostar ou não. Sua família, que convivia com ela diariamente, já havia se acostumado. “Ah não, não se preocupe, ela não gosta mesmo. Não gosta muito de doce”. A mãe se explicava, na tentativa de poupá-la e quando percebia que a filha já estava de saco cheio e poderia a qualquer momento perder a paciência – o que seria bem pior. Não gostar de bolo e defender que não comeria bolo para agradar os outros não era uma escolha fácil, mas mais difícil ainda era fazer o que não sentia vontade apenas porque era o normal, o aceito pela sociedade.

Pensava: a vida era mais fácil para quem gostava de bolo. Conhecia algumas pessoas que não gostavam também, mas por educação e para não passar pelo que ela passava, fingiam gostar. “Olha, você não precisa gostar, apenas finja que gosta. As pessoas não vão falar nada. Coma um pedacinho para agradar e evite essas situações constrangedoras”. E ela já chegou a pensar em comer bolo. Mas era mais forte do que ela. Ela simplesmente não tinha vontade e não se trairia, não faria aquilo que não tivesse vontade, era não ser quem ela era. Chegava a ter pena daqueles que não gostavam, mas queriam evitar olhares.

Parou de frequentar festas de aniversário. Chega uma hora que cansa dar explicações. Encontrou pessoas iguais a ela. Encontrou algumas outras que odiavam pessoas iguais a ela. Não gostar de bolo é afrontar regras para essas. “Já pensou se todo mundo for igual sua filha? Se fosse com a minha, ia comer o bolo inteiro até aprender a gostar”, falaram para sua mãe. E ela sentiu raiva. Sua mãe não tinha nada a ver com suas vontades e não precisava ouvir aquilo. “A culpa é sua por ela não gostar de bolo. Você não ensinou pra ela o que era certo”. Não, mãe, a culpa não é sua e nunca foi. Não existe “culpa”, existe o sim e o não. Existe o honesto e o falso. Existem escolhas e condições.

Não gostar de bolo é uma condição. Condições não são escolhas. Gostar não é escolha. Condições diferentes das aprovadas pela maioria é viver em guerra. Contrariar a maioria é ser discriminado. Essa menina que não gosta de bolo sou eu.

Créditos da imagem: Bolo de prestígio da Nestlé (essa é pra vocês que gostam de bolo ;* haha)