Entre a esquerda e a direita, escolheram o racismo

Após a manifestação contra a corrupção, no último domingo (13/03), a foto de uma babá negra tem sido veiculada e usada para preencher alguns discursos. Muito me incomoda sobre a foto dessa mulher, trabalhando como babá para uma família que se manifestava na tarde de domingo.

O primeiro incômodo surge pelo fato de a foto escancarar a herança que nós, negros e negras, carregamos da escravidão. É a herança que nos faz ocupar posições de subserviência e que é naturalizada em uma sociedade onde a classe média branca / elite vive os privilégios da casa grande, enquanto negros e negras vivem as consequências das senzalas.

Por outro lado, outro forte incomodo que tenho sentido é por ver como a esquerda branca em geral, mais uma vez, tem se apropriado de uma foto como essa e exposto a imagem de uma mulher negra para para fazer uma critica oportunista à manifestação desse domingo, tentando induzir a pensar que o ato não teria apoio popular, o que não é verdade.

A exposição da foto nos faz imaginar que essa esquerda, que parece muito incomodada com a situação, sempre teve a pauta racial como algo importante e prioritário, o que também não é verdade. Algumas situações me vieram à mente com a exposição dessa mulher, que em mais um domingo de trabalho foi vítima de racismo pelos seus patrões e pela esquerda que pensou que iria ajuda-la expondo sua imagem.

Mas essa exposição da imagem de uma pessoa negra para potencializar um posicionamento oportunista não começou com a Xuxa, em algum farol do Rio de Janeiro. Lembremos da manifestação pró-impeachment que ocorreu há exatamente um ano, muito semelhante a essa de domingo, onde um produtor de vídeo, em uma atitude oportunista, engajado em deslegitimar o ato, gravou um depoimento de uma jovem negra e menor de idade que tinha dificuldades para diferenciar o que significava “ser de esquerda” e “ser de direita” (como se no Brasil esse debate fosse introduzido a todos os jovens de forma ampla). Essa menina, após ter o vídeo de sua entrevista viralizado, foi ridicularizada em seus ambientes de convivência e até mesmo tendo que deixar de ir à escola por um tempo, pelo que cheguei a ler sobre o caso.

A exposição da imagem dessa babá, no ato de domingo, pela esquerda branca e intelectual, não tem como prioridade denunciar os resquícios da escravidão e o trabalho de subserviência em que negros e negras são submetidos, mas sim afirmar um discurso de que esse ato não é legitimo. Até porque essa relação de conveniência do branco para com o negro também pode ser observada em espaços de esquerda.

Certa vez, em uma reunião com uma assessora de um prefeito eleito pelo PT, passei pela seguinte situação: entrei em seu belo apartamento, fui recebido por sua empregada que, às 8h da manhã, passava roupa. Começamos a reunião que foi interrompida algumas vezes por “Maria, traz um copo de água por favor”; “Maria, acorda o Pedrinho por favor”, etc. Me lembro também de um colega, um desses ricos de esquerda envolvidos com arte e que estão preocupadíssimas com a causa racial. De vez em quando ele postava fotos das arrumações de sua empregada dizendo: “Nossa, a Maria fez essa obra de arte com os fios do meu celular. A arte surge de onde nunca esperamos, parabéns”.

Há pouquíssimo tempo uma uma figura pública da esquerda rapidamente se posicionou contra uma ação de estudantes negros que ocuparam uma sala de aula na USP, julgando o ato pejorativamente de “radical” e pedindo “bons modos” ao movimento. O posicionamento desse intelectual em relação ao protesto (que denunciava o racismo da instituição e reivindicava cotas raciais), foi em solidariedade ao professor que teve sua aula ocupada. Segundo ele, o professor teria uma historia de luta importante dentro da esquerda, seria muito envolvido nas questões de classe e, portanto, seria injusto ocupar sua sala para questionar o racismo da instituição.

Nós, negras e negros, sabemos que a esquerda, que em geral é branca e acadêmica, está sempre propensa a nos presentear com essas criticas com tom de tutela. Como se os movimentos negros precisassem da ajuda que a esquerda em geral escolhe e não a que reivindicamos. Mas quando pedimos recorte racial, dentro de qualquer movimento de esquerda, sofremos a resistência do “não precisa rachar o movimento”.

Perguntem às feministas negras, que tem seus discursos silenciados dentro dos movimentos feministas ou raciais. Ou aos estudantes negros que tentam fazer esses recortes nas universidades, mas tem suas pautas atropeladas por centros acadêmicos de maioria branca.

Existe uma parte da esquerda que precisa ir além de ridicularizar a “marcha da corrupção” da forma que puder e entender: Postar foto da babá negra na manifestação, enquanto silencia e INVISIBILIZA as pautas negras e feministas nos espaços que você ocupa, não faz de você um lutador anti-escravidão, mas um hipócrita e oportunista.

Como foram os anos de chumbo para o ex-guerrilheiro Ismael Souza

Durante os anos do Regime Militar (1964 – 1985), muitos contrários ao tipo de governo implantado fundaram grupos de guerrilha para combatê-lo e recolocar o país em uma democracia. Ismael Souza foi um deles. Muito jovem, iniciou suas atividades de luta no “partidão”, como era conhecido o então Partido Comunista Brasileiro. Após sua dissidência do partidão, integrou a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), grupo de extrema-esquerda formado em 1966 a partir da união dos dissidentes da organização Política Operária (POLOP) com militares remanescentes do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR). Passou um período conturbado de sua vida, em que conheceu Carlos Mariguella, Joaquim Câmara Ferreira, Carlos Lamarca, entre outros ícones daquele período.  Torturas e prisões fizeram parte de sua rotina e, hoje, ele conta sua história a quem queira saber sobre aqueles anos. Em uma palestra aos alunos do Instituto Federal de Salto, Ismael dissecou sobre sua vivência naquele período e fez críticas aos atuais movimentos de esquerda e aos que pedem por impeachment e uma possível nova intervenção militar. Saiba nesta entrevista suas opiniões, baseadas em toda sua experiência. 

Consumo de narguilé entre adolescentes preocupa autoridades de saúde

Com o cerco se fechando em volta do cigarro, a indústria do tabaco tenta captar novos públicos para manter seus lucros. Dentre as principais apostas para atrair consumidores cada vez mais cedo está o narguilé. Com recipientes coloridos e essências perfumadas, o produto vem sendo consumido em grande parte por adolescentes, colocando autoridades de saúde em alerta.

De acordo com dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2013, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), no Brasil pelo menos 212 mil pessoas fazem uso de narguilé. Comparando os dados da PNS aos da Pesquisa Especial de Tabagismo, feita em 2008, constatou-se que, num período de cinco anos, de 2008 a 2013, a proporção de homens fumantes na faixa dos 18 aos 24 anos que consomem narguilé subiu 139%, passando de 2,3% para 5,5%.

Intitulada “Parece inofensivo, mas fumar narguilé é como fumar cem cigarros”, uma campanha do Ministério da Saúde busca informar sobre os riscos do consumo deste produto. Convivendo cotidianamente com fumantes nas escolas em que estudam, este tema despertou o interesse dos adolescentes da primeira turma da Oficina de Introdução ao Jornalismo e Audiovisual Independentes do projeto “Expressão Comunitária”, que realizou uma reportagem em vídeo para elucidar sobre o assunto.

Acompanhe o trabalho realizado pelas alunas Emilly Martins, Mayara Alves, Marina Sousa, Nathaliê Roberta e Yara Silva sobre a introdução do narguilé entre adolescentes e seus principais malefícios para o corpo.

Dívida grega é impagável e saída do país da zona do euro é fundamental, afirmam especialistas

Gastando mais do que deveria, a Grécia vem passando por profundas dificuldades financeiras após a crise mundial de 2008. Hoje, a dívida do país obtida por meio de empréstimos em bancos europeus – principalmente franceses e alemães –  chega a 180% do seu Produto Interno Bruto (PIB), o que ocasionou uma enorme fuga de capitais e de investimentos.  

Pressionado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), Comissão Europeia e Banco Central Europeu (BCE), seus principais credores,  o governo do premiê Alexis Tsipras, do partido Syriza,  foi eleito com a proposta de não ceder às chantagens dos membros da Troika, mas acabou firmando um acordo de austeridade que semanas antes havia sido reprovado pela maioria dos gregos em um referendo. A atitude foi considerada como traição pela maioria e gerou uma enorme revolta popular,  que ocasionou a renúncia de Tsipras e a convocação de novas eleições. Mas o que levou a Grécia a enfrentar essa crise e quais as consequência dela para a União Europeia e para o mundo?

Para entender melhor sobre o assunto, o Candeia conversou com o professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP) Paulo Roberto Feldmann; com o professor do Instituto de Relações Internacionais também da Universidade de São Paulo (IRI/USP) Kai Enno Lehmann e com o jornalista e pesquisador político da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Aldo Cordeiro Sauda. Saiba, também, se a crise grega pode afetar o Brasil e quais as possíveis medidas para a recuperação do país.

Trabalhadores tomam as ruas de SP por respeito à democracia e aos direitos sociais

Organizado por centrais sindicais e movimentos sociais, o Grande Ato por Liberdade, Direitos e Democracia reuniu na tarde desta quinta-feira (20) milhares de trabalhadores nos principais centros financeiros da cidade de São Paulo. Segundo a organização, mais de 100 mil pessoas fizeram parte do ato (75 mil, segundo a PM) que cobrou respeito ao mandato da presidente Dilma Rousseff e aos direitos sociais, que, segundo eles, estão sendo duramente atingidos pelos atuais ajustes efetuados pelo governo.

O ato teve início por volta das 17h, no Largo da Batata, em Pinheiros, Zona Oeste, e percorreu o trajeto até a Avenida Paulista, principal cartão postal da cidade. Além de profundas reformas nos sistemas tributário, urbano, agrário e educacional, os manifestantes também bradavam a favor de maior participação popular na política brasileira, além do afastamento do atual presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, denunciado por corrupção na Operação Lava Jato, da Polícia Federal.

O Candeia esteve presente por toda a manifestação e registrou os principais momentos e falas. Acompanhe no vídeo acima entrevistas com alguns líderes sindicais e de movimentos sociais que fizeram parte da marcha.

Em nova articulação, Cunha reverte 24 votos e redução da maioridade penal é aprovada na Câmara

Em menos de 24 horas, a Câmara dos Deputados conseguiu derrubar  a rejeição à proposta de redução da maioridade penal – ocorrida na votação desta terça-feira – e aprovou, sob 323 votos a favor e 155 contra, uma emenda substitutiva na madrugada desta quinta (2), que reduz  a idade penal de jovens que cometerem crimes hediondos. Sob nova forte articulação de Eduardo Cunha (PMDB/RJ), presidente da Casa, 24 deputados mudaram seus votos e foram fundamentais para o resultado.

Dentre os que fizeram a alteração do voto, estão os parlamentares Mandetta, do DEM; Abel Mesquita Jr, Marcelo Matos e Subtenente Gonzaga, do PDT; Kaio Maniçoba, do PHS; Celso Maldaner, Dulce Miranda e Lindomar Garçon, do PMDB; Waldir Maranhão, do PP; Marcos Abrão, do PPS; Clarissa Garotinho, do PR; Jorge Silva e Rafael Motta, do PROS; Heráclito Fortes, Paulo Foletto, Tereza Rodrigues e Valadares Filho, do PSB; Marcos Reategui, e Takayama, do PSC; João Paulo Papa e Mara Gabrilli, do PSDB; Eros Biondini, do PTB; Dr. Sinval Malheiros e Evair de Melo, do PV.

A emenda aprovada propõe a redução da maioridade penal, de 18 para 16 anos, nos casos de crimes hediondos, que são caracterizados principalmente por estupro, sequestro, latrocínio e homicídio qualificado, homicídio doloso e lesão corporal seguida de morte. A  diferença deste para o que foi rejeitado anteriormente é a retirada do crime de tráfico de drogas, roubo e lesão corporal grave do rol dos hediondos, principal fator que levou os deputados a repensarem seus votos. O texto também prevê a construção de estabelecimentos específicos para que os adolescentes cumpram a pena, o que pode acelerar processos de incentivo à parcerias público-privadas (PPP) no sistema penitenciário brasileiro, com a quarta maior população carcerária do mundo.

Deputados de partidos contrários à medida falaram em um novo golpe de Cunha contra a democracia e ameaçaram levar o caso ao Supremo Tribunal Federal, caso nova aprovação em segunda votação. Alguns deles se utilizaram das redes sociais  para explanarem com revolta sobre o ocorrido. Segundo o deputado Alessandro Molon, um dos vice-líderes do Partido dos Trabalhadores, “a atitude tomada pelo presidente da Casa afronta as regras mais básicas da democracia, que impedem que as votações podem ser refeitas indefinidademente até que se chegue ao resultado que o presidente quer”, disse em um vídeo publicado em sua página oficial no Facebook.

Seguindo o mesmo raciocínio – em entrevista exclusiva ao coletivo Candeia, que esteve presente em Brasília acompanhando as votações -,  Chico Alencar, do PSOL/RJ, afirmou que “muitos parlamentares são movidos a opinião pública, que é moldada pelos interesses da grande opinião publicada”. Segundo o deputado, “eles querem fazer populismo penal e desenvolver as forças da morte e não as perspectivas de vida.”

Emocionado, o deputado Orlando Silva, do PCdoB/SP, afirma que “o povo pobre e negro  sempre teve enormes dificuldades de conquistar seus direitos e, quando dão passos importantes à frente – como a política de cotas – a reação não aguenta e tentam dar passos atrás.”

A primeira votação também contou com forte presença de movimentos sociais e militantes do movimento negro. Para Douglas Belchior, da UNEafro, essa PEC é “mais uma das medidas que existem para a criminalização do pobre e do negro no País”. Também, afirma que redução da idade penal é “mais uma  forma de prender os mesmos mais cedo e por mais tempo, como acontece desde à época da colônia, do império e dessa democracia de mentira”.

O rapper Gog, também engajado na luta contra a criminalização do povo negro e o preconceito nas periferias, concorda com a fala de seus pares e diz que, para os cristãos que defendem a medida, “Deus não criou cadeia”. O rapper também salienta sobre as falas dos deputados favoráveis à redução que citam, segundo ele, “o choro das mães” das vítimas dos menores, mas que “do choro das mães dos encarcerados, ninguém lembra”. Gog conclui dizendo que 3 anos de internação é muito tempo, levando em conta que apenas 1 dia na cadeia já é muito difícil.

Para entrar para a Constituição Federal, o texto ainda precisa passar por mais uma votação na Câmara dos Deputados para, logo após, seguir para mais duas votações no Senado Federal. Por ser uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), ela não segue para o Executivo, sendo de responsabilidade das Casas legislativas implantarem a medida.

Captação e edição de imagens de Leandro Caproni

Foto principal de Gustavo Lima/Câmara dos Deputados