A anta

Havia um sonho de civilização.

Nele, não haveria diferença entre branco e preto, masculino e feminino, hétero e homo, crente e descrente, sul e norte, trabalho e trabalho. Sim, haveria diferenças, mas não faria diferença se durmo de noite ou de dia, se gosto de rock ou de samba, se falo português ou tupi et cetera.

Como eu disse, havia um sonho e, por assim dizer, um caminho tímido, mas um caminho. Acontece que uma anta de proporções gigantescas empacou pouco além da linha de partida e ficou difícil enxergar a linha de chegada. A anta evacuava e vomitava, de modo que alguns jovens se vestiram de faxineira e gari e resolveram fazer de conta.

Parece que a anta sempre esteve lá, no meio do caminho, à espera dos jovens que sabem fingir – pois há muito em comum entre anta gigantesca, estrume, vômito e jovens que sabem fingir.

E quanto ao sonho de civilização?

Espero que meu filho também o sonhe, a despeito da anta e de certos jovens.

Foto: Reprodução

Cenários

Para quem nunca teve dúvida que foi golpe, penso ser necessário analisar os desdobramentos das notícias de ontem, 17 de maio de 2017.

Dizíamos desde o segundo semestre do ano passado que o golpe ainda estava em marcha e que, eventualmente, o governo golpista cairia no primeiro semestre de 2017, abrindo assim a possibilidade de eleição indireta para presidente.

Bingo!

Mas e daí? Isso é tudo?

De jeito nenhum. Aprendi com excelentes professores que a primeira pergunta que devemos fazer diante de acontecimentos graves como um golpe é: a quem interessa?

As várias emendas à constituição que retiram direitos da população, enviadas ao Congresso pelo Executivo golpista, respondem à questão. O golpe foi orquestrado pelo grande capital, pelos interesses das grandes petroleiras internacionais, bancos e investidores em busca de maximização de lucros. Em prejuízo de quem? Dos pobres, dos trabalhadores e dos marginalizados e excluídos: afrodescendentes, homossexuais, mulheres, povos indígenas, trabalhadores rurais sem terra, etc.

Mas como dizíamos, o golpe ainda está em marcha, sendo imprescindível para seus articuladores impedir a volta, via eleições diretas, do grupo adversário, derrubado pelo impeachment. O crescimento da popularidade de Lula, a despeito das acusações sem provas, e a dificuldade enfrentada por Temer em aprovar no Congresso a reforma trabalhista e da previdência (graças às pressões populares), disparou o sinal de alerta.

Temer não dará conta do trabalho sujo.

Pior, a ascensão da esquerda nas ruas e a popularidade crescente de um de seus líderes trará uma reviravolta em menos de dois anos, frustrando os interesses do grande capital.

O que fazer, então?

Viabilizar a eleição indireta, que elegerá, via Congresso (o mesmo que desferiu o golpe e que vem aprovando medidas impopulares), o (a) novo (a) presidente. Deve ser alguém acima de qualquer suspeita e que terá, no entender dos conspiradores, “legitimidade” para implementar as demais emendas da maldade, em benefício do grande capital.

Qual foi e é o papel da grande mídia no desenrolar do golpe?

Cenários:

  1. Durante todo esse tempo, que teve início nas jornadas de 2013, o jornalismo da Rede Globo (por exemplo, mas não só) agiu sempre de boa fé, investigando com neutralidade todos os envolvidos nas acusações de corrupção. Nesse cenário, seus jornalistas e editores não teriam identificado as verdadeiras razões da seletividade por parte do judiciário nos vazamentos de acusações a políticos de esquerda, isto é, aos que defendem os direitos dos trabalhadores, dos marginalizados, dos excluídos. Ou seja, a grande mídia foi também vítima da desinformação (?), gerada pela incompetência de seus profissionais.
  2. Ao longo da conspiração, o jornalismo em questão participou da conspiração, omitindo informações e análises que indicavam sim tratar-se de um golpe em marcha em benefício do grande capital e em prejuízo dos trabalhadores e excluídos. Neste caso, como é óbvio, o golpe não terá se consumado. Sua marcha, com a queda iminente de Temer, envolve diretamente os grandes formadores de opinião, cujos interesses estão associados ao grande capital.

Se o cenário 1 fizer sentido, não temos como levar a sério o jornalismo da grande mídia.

Se o cenário 2 fizer sentido, é preciso analisar outros cenários, relacionados ao comportamento da população diante dos fatos:

  1. A população acatará todos os desdobramentos, entre os quais a eleição via Congresso de um novo (a) presidente, mesmo com a oposição de uma parcela que pleiteia por eleições diretas. Neste caso, possivelmente as demais medidas golpistas (emendas da maldade) prosseguiriam.
  2. A população, desiludida com o jogo político, estará apta a aceitar uma intervenção “de fora”, isto é, de forças que não participam (no seu entendimento) da política – não necessariamente de militares, mas também. Neste caso, o fechamento do Congresso e outras medidas muito utilizadas ao longo de uma história de golpes no país não estariam descartados. Caso a parcela politizada da população resistisse, mecanismos de “inteligência” e de violência institucionalizada estariam à mão, como sempre estiveram. E o golpe contra os direitos do povo continuariam.
  3. A população, em massa, exigirá eleições gerais, isto é, para o Executivo e Legislativo. Dependendo da correlação de forças, os golpistas recuariam.
  4. A população se dividirá, acirrando os radicalismos e ensejando a intervenção de forças de segurança. Os desdobramentos, nessa hipótese, cabem ao imponderável.

Conclusão:

O golpe ainda está em curso e cabe a cada um de nós analisar, debater e, claro, se manifestar antes que seja tarde.

Foto de Jorge William

O importante é o principal, o resto é secundário

Parece uma afirmação banal, um candidato a bordão ou a clichê. Mas não é. Certas frases, como esta do presidente Luis Inácio Lula da Silva, ironizam uma determinada visão de mundo, a que se tornou dominante no reinado do pensamento único.

Acabei de ver com meus alunos o filme 1984 (li o livro há trinta anos) e o personagem Winston, funcionário do Ministério da Verdade, se encaixa perfeitamente no modelo em questão: o de criador, a despeito de si mesmo, de verdades encomendadas. Sua função é a de remendar a história, criando ou destruindo evidências, de modo que o discurso reforce o único pensamento aceitável: o dominante.

Ninguém estará imune, nem mesmo ele, às mentiras que são contadas como verdades pelos meios de comunicação. Quando Winston passa a questionar seu papel, sofre uma lavagem cerebral e volta a reverberar, com paixão, o apreço unânime pela mentira, celebrada como verdade. Na cena final ele ergue os braços gritando com todo mundo: “Vida longa ao Big Brother!”

O discurso único, que sustenta e fortalece o pensamento único, tem seu fundamento na ocultação do contraditório: não só de evidências contrárias à tese como também no uso inteligente da conjunção se.

Neste caso, li recentemente uma provocação que diz mais ou menos o seguinte: se Lula, por algum motivo, requeresse a posse do triplex em questão, algum juiz no mundo daria ganho de causa a ele com base na documentação existente? Ele obteria, por intermédio das provas arroladas, a posse do bem em questão?

Certamente não!

O discurso linear, o pensamento que elimina a hipótese contrária, é confortável. Ele não exige esforço mental, bastando ao receptor aceitá-lo e erguer os punhos em sinal de concordância. O máximo de debate, neste caso ao redor da mesinha de café do escritório logo após assistir a um dos telejornais matutinos, será sobre qual a melhor pena a ser aplicada ao acusado – isto é, a quem, mesmo sem provas e antes mesmo de qualquer sentença judicial, o discurso único já decidiu pela culpa.

Foto de Ricardo Stuckert

Nada direi

Pensei seriamente em escrever algo sobre os dias 28 de abril e 01 de maio, mas acabei desistindo.

Para que dizer, por exemplo, que cerca de 35 milhões de trabalhadores aderiram à greve do dia 28 se todo mundo já sabe? Ou então, para que relembrar que no dia do trabalhador as manifestações contra a reforma trabalhista e da previdência continuaram, se o fato é de conhecimento geral?

Tem coisa mais inútil do que testemunhar que as pessoas que lá estavam não são vagabundas, que trabalham e que estão lutando pelos direitos de todos?

Igualmente sem sentido seria explicar que os manifestantes sabem muito bem quais são os reais motivos do golpe e que não desistiram de lutar por um mundo melhor. Quem poderia imaginar o contrário?

Por tudo isso, nada direi dos dias 28 de abril e 01 de maio.

Coxinhas e mortadelas

Há alguns anos o país se dividiu explicitamente entre coxinhas e mortadelas. Os primeiros, assim denominados pelos segundos, exigiram o impeachment da presidenta logo após as eleições de 2014. Os segundos, assim denominados pelos primeiros, defendiam a legalidade.

Acabou vencendo o primeiro grupo, o vice passou a governar e uma série de medidas vem sendo tomadas com o objetivo de “fazer o Brasil voltar a crescer”. Eis algumas delas: entrega do pré-sal aos interesses privados internacionais, vinte anos sem reajuste real dos investimentos públicos, terceirização e desregulamentação dos direitos trabalhistas, fim do reajuste do salário mínimo com ganhos reais, sucateamento do ensino público e fim dos investimentos em ciência e tecnologia (ciência sem fronteiras p.e.), destruição da previdência social, etc.

Em menos de um ano, direitos e avanços conquistados com muito esforço foram jogados no lixo e, junto com eles, a perspectiva de um futuro melhor para muita gente. Tudo sob os aplausos do grupo apelidado coxinha.

Caso a plateia continue a aplaudir, virá o dia em que serão retirados inclusive os temperos, a farinha de trigo, a batata e o frango. Pode ser que, quando esse dia chegar, não haja sequer mortadela. E todos, inclusive os que aplaudem, teremos que viver a pão e água.

Foto de Marcelo Morúa

Sono da razão

Se eu pudesse acordá-lo, provavelmente perguntaria o que ele acha de tudo isso. Nada de questões difíceis, apenas o feijão com arroz. O de sempre, entende? Com verduras, carne e sobremesa. Pediria que me falasse sobre sonhos e sobre o contraste da realidade. Que me dissesse qualquer coisa de seu país, sua gente. Talvez ele até me contasse que um dia acharam um bilhete premiado, uma espécie de passaporte para o futuro (estilo Noruega, capisce?) e o rasgaram ao som de seu hino nacional. Eu daria corda, é claro. E ele, empolgado, vomitaria o resto, sem omitir seus próprios aplausos a quem o surripiou. Mas tudo isso, seja lá o que for, ele só diria se eu pudesse acordá-lo. Será que vale a pena a essa altura do campeonato?

Foto de Marcelo Morúa