Do alto do olhar, os esquecidos

A perplexidade abrange meus olhos quando me deparo com alguns comportamentos ínfimos da inclinação humana. Aqui no centro da cidade, nos grandes prédios, na selva de pedra, todos querem um osso para roer, sem se preocupar se o elemento ao lado está sedento, clamando de uma maneira delinear e desesperada pelo suplício. Na fronteira, a cada esquina da periferia, deparo-me com uma alma que perambula sem destinação, como se estivesse loucamente à procura da porta do céu, no entanto por devaneios, é só a do inferno que o encontra.

Assim, o espanto abre minha mente na ocasião em que me deparo com o ser que contorce, como na cólica nefasta de um cálculo renal, a procura de saídas tangenciais, mergulhado em seu alucinógeno, afogado nas mazelas da indigência, e que nos seus ouvidos só fazem ecoar discursos rasos da meritocracia.

 Não longe dali, mais uma vez, a aspereza do susto confronta-me, no momento em que me deparo com discursos de desesperança: pelo pai o abandono da filha. Na filha somente o querer ser compreendida, agonizando pelos critérios devastadores de um manual de doenças mentais que colam em sua testa e que perpassam todo seu ser.

Mais adiante, é incompreensível a missão de defrontar-se com a impotência da mãe que luta pelas suas crianças, no entanto não encontra forças. Nela mesma a solidão e o descaso, o limite da forma escapa e em busca de compreensão, cai nas garras das redes sem proteção que não dão a ela a devida sustentação.

Inexplicável é a sensação de experimentar os arredores da cidade, os maus vistos e os maus tratados, chegar ao ponto, e depara-se com a criança sedenta, faminta, alimentando-se de migalhas. Um sufocamento acaricia meu peito, que futuro é reservado para essas crianças esquecidas, vivendo a sobrevida, e o escárnio?

Como podemos nós, sentirmos estar a par diante de toda essa carnificina. Cada qual preocupado e atormentado por sua ferida narcísica, que sem sensibilizar-se da existência do outro, não contempla que esse não possui nada para lhe chamar de seu, nem ao menos a própria vida, degenerada e abalada. Dessa mesma forma a estranheza contempla meu mundo, durante o tempo que me ouço e percebo o quão distante os afortunados estão, das possibilidades escondidas, da mesquinhez atrelada na garganta, do cerco fechado, do medo do viver e nos estilhaços em que se transmutam, fazendo os esquecer o que nessa vida realmente importa.

A realidade, muito antes de doída é a própria realidade nua, crua e apresentada, de mim apenas o martírio de viver na contemporaneidade perdida no logo da marca estampada da vestimenta. Ali ao lado, o filho querendo ser encontrado. Porém, ouço seu muito obrigado, parece que seu tempo está escasso, tentando preencher com o jogo o seu próprio buraco.

O assombro me faz estremecer, quando me deparo com esse mundo de ponta cabeça, que pretende ser compreendido, mas pelo ímpeto e ânsia de ser comovido acabam por vender-se aos discursos mais lisos, contidos e escarnecidos. E ao final de toda essa trajetória, contemplando o admirar do lado de fora, penso que é uma pena que alguns de vocês jamais venham a dar-se conta do quão longe fui dentro daqueles olhares. Infelizmente ainda há certas distâncias que seu olhar simplesmente não pode alcançar e, aqui do alto onde estou tudo tem outra proporção.

Entrevista: professor de Processo Penal fala sobre desdobramentos e polêmicas da Operação Lava Jato

Considerada a maior investigação sobre corrupção conduzida até hoje no Brasil, a Operação Lava Lato chega a sua 24° fase, intitulada ‘Aletheia’. Criada para investigar uma rede de doleiros, a operação conduzida pela Polícia Federal descobriu um enorme esquema de corrupção envolvendo empreiteiras e políticos na 9° maior petroleira do mundo, a Petrobrás.  O debate sobre a legalidade das ações de seu condutor, o juiz Sérgio Moro, veio à tona após um mandado de condução coercitiva contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A Lava Jato já expediu quase cem mandados de prisão, 117 conduções coercitivas e abriu investigação contra cerca de 50 políticos.

Para entender melhor sobre o assunto e seus desdobramentos, o candeia foi até o Fórum João Mendes e conversou com o juiz, mestre e doutor em Processo Penal e professor universitário Guilherme Madeira. Acompanhe alguns pontos principais sobre a operação e sua repercussão internacional. 

 

 

 

 

Como foram os anos de chumbo para o ex-guerrilheiro Ismael Souza

Durante os anos do Regime Militar (1964 – 1985), muitos contrários ao tipo de governo implantado fundaram grupos de guerrilha para combatê-lo e recolocar o país em uma democracia. Ismael Souza foi um deles. Muito jovem, iniciou suas atividades de luta no “partidão”, como era conhecido o então Partido Comunista Brasileiro. Após sua dissidência do partidão, integrou a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), grupo de extrema-esquerda formado em 1966 a partir da união dos dissidentes da organização Política Operária (POLOP) com militares remanescentes do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR). Passou um período conturbado de sua vida, em que conheceu Carlos Mariguella, Joaquim Câmara Ferreira, Carlos Lamarca, entre outros ícones daquele período.  Torturas e prisões fizeram parte de sua rotina e, hoje, ele conta sua história a quem queira saber sobre aqueles anos. Em uma palestra aos alunos do Instituto Federal de Salto, Ismael dissecou sobre sua vivência naquele período e fez críticas aos atuais movimentos de esquerda e aos que pedem por impeachment e uma possível nova intervenção militar. Saiba nesta entrevista suas opiniões, baseadas em toda sua experiência. 

Consumo de narguilé entre adolescentes preocupa autoridades de saúde

Com o cerco se fechando em volta do cigarro, a indústria do tabaco tenta captar novos públicos para manter seus lucros. Dentre as principais apostas para atrair consumidores cada vez mais cedo está o narguilé. Com recipientes coloridos e essências perfumadas, o produto vem sendo consumido em grande parte por adolescentes, colocando autoridades de saúde em alerta.

De acordo com dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2013, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), no Brasil pelo menos 212 mil pessoas fazem uso de narguilé. Comparando os dados da PNS aos da Pesquisa Especial de Tabagismo, feita em 2008, constatou-se que, num período de cinco anos, de 2008 a 2013, a proporção de homens fumantes na faixa dos 18 aos 24 anos que consomem narguilé subiu 139%, passando de 2,3% para 5,5%.

Intitulada “Parece inofensivo, mas fumar narguilé é como fumar cem cigarros”, uma campanha do Ministério da Saúde busca informar sobre os riscos do consumo deste produto. Convivendo cotidianamente com fumantes nas escolas em que estudam, este tema despertou o interesse dos adolescentes da primeira turma da Oficina de Introdução ao Jornalismo e Audiovisual Independentes do projeto “Expressão Comunitária”, que realizou uma reportagem em vídeo para elucidar sobre o assunto.

Acompanhe o trabalho realizado pelas alunas Emilly Martins, Mayara Alves, Marina Sousa, Nathaliê Roberta e Yara Silva sobre a introdução do narguilé entre adolescentes e seus principais malefícios para o corpo.

Periferia luta por espaços para promover cultura

Uma das principais reivindicações da periferia é a luta por espaços para disseminação de cultura. A população que reside nos extremos, na maioria das vezes, precisa deslocar-se até o centro das cidades para frequentar espaços de lazer ou de conhecimento. Porém, nesses bairros afastados do centro, existe muita música, muita arte, poesia, sarau e talentos prontos para serem ouvidos e compartilhados. Este ano de 2015 começou, no estado de São Paulo, com mais um fator agravante para aqueles que querem produzir e usufruir da cultura. O governador Geraldo Alckmin chegou a cortar cerca de R$ 13 milhões que seriam investidos no setor, o que gerou fechamento de oficinas e mais dificuldades para que os projetos se mantenham ativos.

Pensando nisto, a primeira turma da Oficina de Introdução ao Jornalismo e Audiovisual Independentes do projeto “Expressão Comunitária” realizou uma reportagem em vídeo para discutir essa problemática. Por que a periferia, tão rica em cultura, sofre tanto para ter acesso a ela? Como os principais coletivos conseguem se formar e realizar atividades? Como atrair a população para esses espaços? Como conscientizar de sua importância?

Essas foram algumas das perguntas respondidas na reportagem assinada por Caroline Bueno, Junior Anacleto, Kamuky Moyshy, Sabrina Muniz e Ygor de Jesus. Acompanhe no vídeo acima o primeiro trabalho da nossa turma e conheça parte dos responsáveis pela disseminação de cultura e arte na Vila Cisper, em São Paulo.

Conheça o Expressão Comunitária, projeto de oficinas de jornalismo e audiovisual do Candeia

O projeto ‘Expressão Comunitária” foi criado em 2015 como o intuito de ser um complemento das atividades do Candeia.  Ele consiste na elaboração de oficinas de introdução ao jornalismo e audiovisual independentes para adolescentes das periferias de São Paulo que estejam cursando o ensino médio da rede pública, e, em seu primeiro ano de existência, se alocou nas dependências do  CEU Quinta do Sol, na Vila Cisper, Zona Leste. 

A ideia do EC é fornecer aos alunos bases para a elaboração de suas próprias reportagens, ensinando conceitos básicos de jornalismo e audiovisual; desde a criação de uma pauta ao manuseio de câmeras, elaboração e prática de entrevistas, além de decupagem e edição, auxiliando à chegada da reportagem final. A oficina tem duração de 8 sábados com cada turma (Neste primeiro ano, sendo duas turmas de 10 alunos), e a ideia é  levar aos jovens noções básicas do que é ser jornalista e produtor audiovisual no cenário independente – que tem se fortalecido cada vez mais com o auxílio da internet.

Além da prática, são levados temas atuais para serem discutidos durante as aulas, como a crise econômica e o papel da mídia na manipulação das informações. A ética no jornalismo é um dos temas abordados e bastante difundidos e exemplificados durante as aulas, com o objetivo de sempre ressaltar a importância daquele que transmite a informação.

Ao final de cada oficina, serão apresentadas reportagens elaboradas pelo coletivo juntamente com cada turma – sendo as pautas trazidas pelos alunos.

Acompanhe em nossa coluna o desenvolvimento deste projeto! Abaixo, confira um vídeo explicativo e algumas fotos de nossas primeiras turmas. 

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Alunos entrevistando ativista cultural para a cobertura de uma das pautas escolhidas
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Alunos aprendendo técnicas de gravação externa

Última aula da primeira turma
Última aula da primeira turma

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