Nada direi

Pensei seriamente em escrever algo sobre os dias 28 de abril e 01 de maio, mas acabei desistindo.

Para que dizer, por exemplo, que cerca de 35 milhões de trabalhadores aderiram à greve do dia 28 se todo mundo já sabe? Ou então, para que relembrar que no dia do trabalhador as manifestações contra a reforma trabalhista e da previdência continuaram, se o fato é de conhecimento geral?

Tem coisa mais inútil do que testemunhar que as pessoas que lá estavam não são vagabundas, que trabalham e que estão lutando pelos direitos de todos?

Igualmente sem sentido seria explicar que os manifestantes sabem muito bem quais são os reais motivos do golpe e que não desistiram de lutar por um mundo melhor. Quem poderia imaginar o contrário?

Por tudo isso, nada direi dos dias 28 de abril e 01 de maio.

Encontro vivo

Quando menos espero, olho para essa conexão inexplicável do universo. A língua falada e ouvida, a mesma, poder de enlaçar nossas mentes e descobrir nelas o que há de inusitado e belo. Questiono se realmente é coisa de universo, ou se outras vidas passaram se aqui. Revivo e seguimos revivendo cada ano, cada ciclo, na profundeza do simbólico, mundo nosso. Ali luminescências de todas as cores, perpassam o verde e o claro, e tudo é tão bonito, tudo é ao mesmo tempo tão contemplativo e desassossegado, mas não quero ir embora. E quando tudo mais se acalma, o tempo para, as luzes se ascendem e então, é ali que te encontro.

Coxinhas e mortadelas

Há alguns anos o país se dividiu explicitamente entre coxinhas e mortadelas. Os primeiros, assim denominados pelos segundos, exigiram o impeachment da presidenta logo após as eleições de 2014. Os segundos, assim denominados pelos primeiros, defendiam a legalidade.

Acabou vencendo o primeiro grupo, o vice passou a governar e uma série de medidas vem sendo tomadas com o objetivo de “fazer o Brasil voltar a crescer”. Eis algumas delas: entrega do pré-sal aos interesses privados internacionais, vinte anos sem reajuste real dos investimentos públicos, terceirização e desregulamentação dos direitos trabalhistas, fim do reajuste do salário mínimo com ganhos reais, sucateamento do ensino público e fim dos investimentos em ciência e tecnologia (ciência sem fronteiras p.e.), destruição da previdência social, etc.

Em menos de um ano, direitos e avanços conquistados com muito esforço foram jogados no lixo e, junto com eles, a perspectiva de um futuro melhor para muita gente. Tudo sob os aplausos do grupo apelidado coxinha.

Caso a plateia continue a aplaudir, virá o dia em que serão retirados inclusive os temperos, a farinha de trigo, a batata e o frango. Pode ser que, quando esse dia chegar, não haja sequer mortadela. E todos, inclusive os que aplaudem, teremos que viver a pão e água.

Foto de Marcelo Morúa

Sono da razão

Se eu pudesse acordá-lo, provavelmente perguntaria o que ele acha de tudo isso. Nada de questões difíceis, apenas o feijão com arroz. O de sempre, entende? Com verduras, carne e sobremesa. Pediria que me falasse sobre sonhos e sobre o contraste da realidade. Que me dissesse qualquer coisa de seu país, sua gente. Talvez ele até me contasse que um dia acharam um bilhete premiado, uma espécie de passaporte para o futuro (estilo Noruega, capisce?) e o rasgaram ao som de seu hino nacional. Eu daria corda, é claro. E ele, empolgado, vomitaria o resto, sem omitir seus próprios aplausos a quem o surripiou. Mas tudo isso, seja lá o que for, ele só diria se eu pudesse acordá-lo. Será que vale a pena a essa altura do campeonato?

Foto de Marcelo Morúa

Fina flor

Linda semente, exuberante cor não sentia se assim.

Vida fechada, moldada e encarcerada, que difícil viver assim.

A profundeza leva ao desconhecido, coisas cada vez mais novas, descobrimento em vida, vida vivida, coisas que passam, coisas que ficam.

A terra de repente cai, a chuva desola, o vento arrasa, e o tempo perpassa. Andamento sem direção, na mão o coração.

Crescendo se vai, sentindo se vai, com as dores do mundo se aprende, com as dores do outro se prende.

Viver é ato de fé, coragem pra ser, esperança pra existir.

O colorido tá aí, uma flor é sempre única, uma coloração especial.

Mesmo a fragilidade de uma flor, traz a força arrancar, e o pó abater.

Força pra crescer, animo pra existir, num mundo não tão colorido assim.

Imitando Magal

O país está em recessão e falta grana pra tudo, mas é noite de carnaval. Certamente há algo a mais quando a alegria tem hora e lugar marcados para acontecer. Ninguém antecipa as cinzas, nem muito menos as lágrimas que virão. E alguém chama por Magal: “Comigo!”, diz, e todos repetem um mundo de sensações. Estamos todos lá, quase todos. Enquanto ouvimos o “bate forte o tambor, que eu quero o tic tic tic tic tac”, logo ali aprovam a Lei dos sexagenários para que dancemos. Magal retoma, fazer de conta é parte do ritual. E quem, entre tantos, suspeitaria da dor latejante? Quando a alegria tem hora e lugar marcados, eu também represento, somos todos atores. Afinal, escrever deixou inclusive de ser ofício.

Foto de Marcelo Morúa