Muros

Há todo tipo de muro. Alguns são grandes e duradouros, como o chinês, outros nem tanto, como o berlinense. Alguns estão em construção: na Palestina, na América do Norte, ou entre nós, gente que é surda a dizeres outros. Há muros de concreto, de arame farpado, de pedra e de pele e osso. E há, por assim dizer, uma geografia, uma história e uma filosofia dos muros, sejam eles das lamentações, antropológicos ou existenciais. Eu vivo entre muros, mas não tenho medo. Sei que vão cair, hoje, amanhã ou depois de amanhã. Quando caírem, pode ser que faça sol, como agora, como também pode ser dia de trovoada. Se chover, a chuva será bem-vinda, ela transformará em lama a masmorra e o medo que nela habita. E ninguém mais se lembrará dos muros, a não ser dos que conseguem falar, os únicos que um dia souberam ouvir.

Foto de Marcelo Morúa

Pareceres da experiência errante

  • Não espere muito dos outros, ou espere se isso lhe oferecer a sensação de paz e tranquilidade, contudo saiba que esperar que o outro supra as suas necessidades e expectativas, é um comportamento infantil e primitivo, que irá lhe deixar muitas vezes a margem de você mesmo.
  • Evitar o contato com o outro é uma forma de defesa, de se esconder atrás de uma armadura ou de se isolar numa ilha deserta, na tentativa de que alguém o salve, não ter medo do contato é descobrir que conhecer e deixar-se conhecer pode ser transformador.
  • Talvez você não esteja tão velho quanto pensa, a idade não é contabilizada pelo número de anos que você viveu, mas sim das experiências significativas que passou e quanto aprendizado adquiriu, por isso não deixe de viver a cada momento, no futuro poderá ser frustrante se deparar com tantas possibilidades que deixou passar e que não prosseguiu por imaginar que não conseguiria.
  • Aprenda, os outros não pensam nada sobre você, na maioria das vezes, é você que pensa o que o outro está pensando.
  • Viajar é muito bom, não só para conhecer outros lugares, pessoas e culturas, mas também para se dar conta da presença da falta, e que no retorno ainda poderá encontrar as pessoas que te querem bem e quem sabe dar mais valor à isso.
  • Tentar controlar tudo e a todos é uma maneira de se prender numa reta, um esforço para não se deparar com a falta, impotência ou com o abandono, sem contar que os empenhos e sacrifícios podem ser cansativos e sobrecarregantes. Acredite, não temos controle absoluto sobre a vida, o que de imediato parece perceptível às vezes tem um sentido invisível e nem sempre é aquilo que parece ser, sendo assim como podemos ter controle sobre tudo?!
  • Não mais se preocupe com o seu passado, não há como retornar e realizar as coisas e as adversidades da vida de uma maneira diferente, mas há como não perder mais tempo hoje e se permitir vivenciar as coisas de uma outra forma.
  • Não se preocupe também com seu futuro, viver com o pensamento somente lá na frente pode ser preocupante e angustiante, resultando numa carga muito grande de ansiedade, uma forma de não estar em contato com você mesmo nesse momento, no presente, sendo impossível que o futuro seja moldado normalmente.
  • As pessoas que partiram, não partiram totalmente, partiram em matéria, mas permanecem vivos dentro de nós, a questão é perceber essa vivência e o quanto foram contribuintes para nos tornarmos seres humanos melhores.
  • Enfrente seus medos e temores, isso lhe trará sentimentos de gratificação pessoal, nunca vivenciados antes.
  • Independente de tudo, seja você mesmo, a caminhada é longa e os obstáculos são muitos e que você possa perceber que no final, é só você contra você mesmo.

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“Ninguém escreve para ganhar fama, que, de qualquer maneira, é coisa transitória, ou para atingir a imortalidade. Seguramente, escrevemos em primeiro lugar para satisfazer alguma coisa que se acha dentro de nós, não para as outras pessoas. É claro que, quando os outros reconhecem os nossos esforços, a satisfação interior aumenta, mas, mesmo assim, escrevemos primeiramente para nós mesmos, seguindo um impulso que vem de dentro.”

Sigmund Freud

Escárnio

Conheço um lugar onde quase tudo vira piada, tirar sarro é patrimônio cultural. Lá, ganha destaque quem rebaixa o outro pela cor, forma, trejeito ou linguagem – ter bom humor é humilhar com estilo. Ridículo é sempre o outro: seu nariz, não minhas orelhas; seu cabelo, não meus olhos; sua mão, não minha língua. Quem não ri, passa por tolo ou chato; ou acaba rindo sem vontade, para não ser a piada da vez. No fim do verão, quando não sabem mais de quem rir, caem na folia e zombam de tudo. Será que este ano rirão de si mesmos?

Foto de Marcelo Morúa

A vaca

Aprendi na escola que a vaca é o mais útil dos animais. Produz leite, esterco e ainda por cima trabalha enquanto vive; depois de morta, “cede” sua carne, couro e ossos.

Eu era uma criança e não me passava pela cabeça que a vaca desenhada no quadro negro pudesse ser uma metáfora, uma imagem no lugar de outra. Bastava entender o valor de ser útil, tanto em vida quanto na morte. E, mais ainda, que ser útil significa trabalhar e produzir leite ou esterco; que, ao fim, com placidez bovina, cederíamos nossa carne, couro e ossos.

Sem um mugido sequer.

O lucro do Santander e o déficit da Previdência

A manchete foi mais ou menos assim “Santander aumenta seu lucro; números do Brasil compensam os resultados ruins no Reino Unido”.

Saiu no The Independent e falava sobre a queda de 14,7% no lucro do banco na região após o Reino Unido taxar em 8% as instituições bancárias, aliado à desvalorização da libra. Mesmo assim o lucro mundial do banco espanhol aumentou 4%, atingindo 6,2 bilhões de euros (21 bilhões de reais). Como pode?

No G1 surgiu a manchete “Santander Brasil tem lucro líquido de R$ 7,339 bilhões em 2016”. Mesmo em ano de crise, o lucro líquido (grana livre, depois de pagar impostos, aluguéis, salários, tudo) aumentou 10,8% comparado ao de 2015. Como pode?

Nosso país tem uma dívida pública absurda, em torno de R$ 3,5 trilhões. Assim como dívida alta, temos juros altos, o que faz lucrar muito aqueles que detêm títulos da dívida.

O Estado brasileiro paga muito dinheiro em juros dessa dívida anualmente. Parte desses recursos vem de uma DRU (Desvinculação de Receitas da União) que retira 30% das receitas da Previdência Social e é repassada para pagar os juros da dívida pública.

Alguns dos maiores credores (detentores de títulos da dívida pública) do Estado brasileiro são os bancos. Os mesmos que registram lucros recordes mesmo em ano de crise, quando (quase) ninguém mais está lucrando.

33% do lucro global do Santander veio do Brasil em recessão, país que tem no Congresso Nacional a atuação de lobistas que atuam para que o Estado não taxe os bancos como fez o Reino Unido, sob a desculpa de que isso afastaria os investidores (que não se afastaram do Reino Unido mesmo após a taxação de 8%).

A tal Previdência “deficitária” repassa suas receitas para garantir o bem estar de investidores que vivem longe do Brasil. A reforma da previdência apresentada por Temer, a qual vai passar no mesmo Congresso dos lobistas, vai fazer com que cada pessoa que trabalha nesse país pague o lucro de bancos da Europa e de demais países centrais no capitalismo.

As grandes navegações do Século XXI chegaram com uma roupagem nova e já estão levando o que sobrou.

O prefeito João Doria e sua guerra perdida

Na excelente série The Crown, disponível na Netflix, uma personagem nos lembra que os grandes líderes são aqueles que sabem escolher as batalhas certas para lutar e deixar de lado as que não pode vencer. O prefeito de São Paulo João Doria vai na contramão desse antigo ensinamento.

Ao decidir combater as pichações de forma ostensiva e midiática, entra numa batalha que não pode vencer. Não que as pichações devam ser liberadas ou não combatidas. Porém, ao fazê-lo com estardalhaço de marqueteiro, assumindo tom autoritário do tipo “prendo e arrebento” e se mostrando arrogante, precipitado e atabalhoado nas ações de combate, mostra desconhecimento dos mecanismos orgânicos de uma cidade como São Paulo e distanciamento da cultura de rua. No lugar do diálogo, prefere a truculência.

Movido pela prepotência de quem não está acostumado a dialogar ou ser contrariado – atitude típica de pessoas muito mimadas –, saiu pintando a cidade de cinza, destruindo obras importantes de artistas consagrados. Quando viu que faz besteira, se fez de esperto e disse que vai chamar artistas para colorirem o que foi apagado. Também veio com a conversa de separar pixo de arte. Uma obviedade que só quem vive no mundo de fantasia de mansões e condomínios fechados não enxerga. Grafite é arte, pixo é voz.

Com suas atitudes, Doria corre o risco de não apenas perder essa batalha como também de sair dela mais ridicularizado do que de costume. As intervenções registradas nos últimos dias nos muros pintados de cinza já dão o tom do que vem por aí. Ao eleger pichadores como inimigos declarados, reacende a chama de um movimento enraizado na cultura urbana de qualquer metrópole, marcado principalmente pelo ímpeto e ousadia contestatória dos jovens. Inadvertidamente, fez o desafio e chamou para briga um pessoal que adora ser desafiado. Vai perder feio e nesse meio tempo vai gastar nosso dinheiro e nossa paciência.

Doria age como um gestor incapaz de entender a rua, a cidade e suas particularidades. Não consegue enxergar abaixo das camadas mais altas a que está habituado e se embanana quando fala ou age nos níveis mais próximos da rua. Assume posições e atitudes de quem tem zero experiência em andar de verdade por São Paulo, a pé, e falar com as pessoas reais. Só faz isso quando tem lente para filmar e fotografar e só pelo tempo necessário para ser filmado e fotografado. De resto, parece conhecer a cidade apenas pela TV ou pela janela do carro. É por isso que comprou a briga errada.

Fosse menos almofadinha, do tipo que parece que a mamãe penteou e vestiu antes de sair de casa, saberia que para lidar com pichações a estratégia deveria ser menos marqueteira e mais inteligente. Menos agressiva e mais sutil. Declarar guerra é pedir para ter guerra. A rua, nesse sentido, não se intimida e revida. Pior para os muros, pior para a cidade, pior para o nosso bolso, pior para o prefeito.

Escrito pelo jornalista Rogério de Moraes, em seu Medium.