Dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove… Pai, você sabe contar até um milhão? Eu sei.

 

Estava pensando nos 50 anos de Ditadura Militar quando parei pra observar o menino Lucas. Esperando no ponto de ônibus, sentado no banco, cantarolando números enquanto fazia essas coisas de surrealidade infantil; levantava, sentava, levantava, pulava, rodava, sorria, grunhia. Devia ter uns 5 anos. Logo que o percebi, já fiquei admirado. Adoro crianças, adoro também os velhos, o intermédio entre os dois não me agrada muito. Deixei passar um dos ônibus, fiquei assistindo mais um pouco a cantoria do Lucas, até que ele gritou: “Viiiiiiiinte e cincoowwooooo!!!”. O pai do menino, como qualquer pai naquela hora, ficou irritado. Ameaçando Lucas, disse que ele parecia um babacão, que babacões merecem apanhar, e que ia bater se ele continuasse. Foi grosso. Mas quase todo pai de família é grosso às vezes. Não quero julga-lo, só que fiquei desengolido com aquilo, e o que me deixou mais avesso na situação foi a reação de Lucas. Primeiro, ele deu uma retrucada; depois parou de pular, de cantar e de sorrir; deixou de criançar. Murchou. E eu ali, assistindo Lucas aprender a se adequar, assim como eu me adequei e me adequo sempre. E você que agora lê também, amigo. Adequados. Nós temos o outro como guia de nós mesmos. Inevitável, talvez, mas pouco me importa, minha preocupação é outra. Me preocupo com a ignorância do intermediário babaca que quer adequar Lucas: nós. Vamos ensinar Lucas a agir certo e errado, reprimindo a criança; vamos ensinar ignorância, e diremos que inteligente é quem tira boas notas, e os outros são burros sem capacidade/ Que os gays devem ser constrangidos, e que ser bicha é vergonhoso/ Que a única forma de Lucas ter dignidade é ter um bom emprego, qualquer outra forma de vida é inútil/ Que o ponto máximo de um humano é um carro lindo, uma boa casa e aparência de prosperidade; pode ser bom em outras coisas também, mas se não tiver esses primeiros de nada valem outros méritos / Que faz parte da vida vender os dias para trabalhos sem interesse e que questionar isso é coisa de vagabundo medíocre / Que homem deve transar com varias mulheres para ter respeito, mas mulher que transa com dois é vadia / Que o álcool não é droga / Que gente que usa droga não tem valor. Só se for rico, ai pode; isso a gente não vai dizer assim claramente, mas sempre que falarmos de drogas vamos relaciona-las as favelas ou as baladas, mas não temos tanta raiva das baladas, pois as frequentamos / Que o pobre e o rico tem as mesmas chances; na verdade a gente vai aceitar que não tem, mas vamos fingir que tem sim dizendo que “pode” / Que para manter um lugar seguro a gente deve isola-lo da maior parte das pessoas; mostraremos que isso é verdade na prática, e vamos tentar esquecer os que estão inseguros. / Que ir contra o Direito a propriedade ou mesmo defender distribuição de riqueza é passar por cima de um valor humano, sendo assim, casa e teto devem estar para aqueles que buscam teto nas formas de lei única do trabalho; seremos insensíveis com aqueles que não podem trabalhar porque pregaremos que todos podem, os barracos de pau são a prova de que o pobre pode ser honesto / Que ser violento é justo quando for para reprimir as pessoas que são contra o certo e o errado que tanto foi ensinado. / Esse é o mundo que nós daremos para Lucas. Era lindo o menino. É, mas por enquanto Lucas está intocável como um cristal, transparente e brilhante. Lucas pode ser tudo ainda. Pode ser nosso salvador ou pode ser mais uma de nossas vítimas. Todos fomos crianças um dia.

Brasil, 1964, 50 anos.

Adultos não prestam.
– Dezesseeeeis, dezesseeeeete, dezenooooito, dezenooooove… Você sabe contar até um milhão?”

Por Diego Silva, radialista e um do idealizadores do blog Candeia.